“Uma cidade humana, inclusiva, resiliente e sustentável”

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“Uma cidade humana, inclusiva, resiliente e sustentável”

Doutora em Engenharia de Computação pela Escola Politécnica da USP (Epusp), com tema de pesquisa relativo à transmissão de dados por luz visível aplicada aos Sistemas Inteligentes de Transporte, a professora Renata Marè coordena o curso sobre Cidades Inteligentes na Sustentare Escola de Negócios, de Joinville. Renata concedeu entrevista à Francisca, como parte da reportagem de capa da edição de dezembro. Confira a seguir a íntegra da conversa.

Como você conceitua uma “cidade inteligente”?

Uma cidade inteligente é humana, inclusiva, resiliente e sustentável. Explicando. Humana, inclusiva e sustentável: é voltada para o ser humano e, portanto, pode incorporar em seus processos e serviços uma série de tecnologias, visando à melhoria da qualidade de vida de seus usuários (residentes ou visitantes), com otimização dos recursos naturais, de modo a não comprometer as gerações futuras. Resiliente: precisa ser resiliente, tanto em relação aos eventos naturais indesejados (inundações, deslizamentos de terra etc.) quanto àqueles causados pelo homem (greves, passeatas, atentados etc.), quanto ainda aos ataques cibernéticos que, por conta da incorporação de tecnologias e conectividade à sua infraestrutura, serão cada vez mais frequentes. Ou seja, ela precisa ser capaz de recuperar o mais breve possível a sua rotina, com o mínimo de prejuízos à população, a despeito desses fatores inevitáveis.

No caminho para se tornar cidade inteligente, as metrópoles já saem na frente, ou pelo contrário, seus problemas de origem dificultam a caminhada e viram obstáculos?

Não considero os problemas de origem das cidades como obstáculos, mas sim como desafios a superar e até como fomentadores de inúmeras oportunidades. Aliás, esse deve ser o pensamento de seus gestores e dos demais atores envolvidos para que, de fato, haja um ambiente propício para as modificações estruturais necessárias. É complexo para qualquer cidade se tornar inteligente, sem dúvida, mas é perfeitamente possível e extremamente necessário para o planeta.

Falando especificamente de Joinville, quais são nossos pontos fortes e quais os pontos fracos para merecermos este status?

Joinville vem apresentando iniciativas alinhadas com alguns dos conceitos apresentados, como o Programa Join.Valle, com o seu Pacto pela Inovação e o Ciclo de Aceleração, com a participação das universidades e da indústria; o desenvolvimento da plataforma Smart  Mobility e o seu compartilhamento com universidades; eventos como a ExpoInovação e iniciativas de empresários que acreditam no potencial local e no valor da formação de qualidade, como acontece na Sustentare e no Perini City Lab, que congrega o parque tecnológico local com academia, startups e pesquisadores em geral, visando se tornar um grande laboratório vivo para testes de tecnologias voltadas às cidades. É essencial que essas iniciativas não se percam com o tempo, especialmente com as eventuais mudanças políticas quando das novas eleições. Infelizmente, no Brasil é comum a descontinuidade de políticas públicas quando ocorrem mudanças de partidos no poder, que pode ser um entrave à consolidação das mudanças necessárias. Daí a necessidade do engajamento de todos os atores para que população, setor privado e academia se mantenham ativos nos processos decisórios que lhes digam respeito.

Como sensibilizar os diferentes atores sociais, da academia ao poder público, para a importância desse conceito?

Segundo estimativas da ONU, até 2050 cerca de 70% da população mundial estará vivendo em cidades e, até 2030, teremos 43 megacidades no mundo (aquelas com mais de 10 milhões de habitantes!). Já está provado que os modelos urbanos atuais não são sustentáveis (basta ver a nossa contribuição para a aceleração das mudanças climáticas e seus efeitos). Portanto, como proporcionar condições de vida adequadas a tanta gente no ambiente urbano, com preservação do meio ambiente? Por meio de novos modelos de cidades, como as cidades inteligentes. As cidades precisam de uma nova visão mais integrada, holística. O envolvimento de todos os atores é essencial para o sucesso das ações que levem às transformações necessárias: sociedade civil, setores público e privado e academia. Todos devem ser chamados “à mesa” para que as necessidades locais e suas correlações com o entorno sejam discutidas, priorizadas e gerem planos diretores factíveis a cada cidade. Ou seja, o respeito à diversidade de opiniões e visões, a ética, a corresponsabilidade e a multidisciplinaridade são algumas das características essenciais à viabilidade deste novo ecossistema.

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