Um papo com o diretor e o ator de “Copi”

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Curta baseado em livro abre festival de Jaraguá

Amcle Lima

O curta-metragem “Copi” marca a abertura do 4º Festival de Cinema de Jaraguá do Sul 2021, na segunda-feira, 27, às 19h, nas dependências da Unisociesc em Joinville (você pode acompanhar pelo YouTube. Baseada no romance “As Fantasias Eletivas”, do escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder (leia reportagem sobre o processo criativo do livro na Francisca #23), a produção foi filmada em Balneário Camboriú, local onde a história do livro se passa.

O curta estreou nas telas no ano passado, no Festival Audiovisual Mercosul 2020, e vem circulando por festivais, tendo sido exibido recentemente na Itália, na 15ª edição do River Film Festival (RiFF). O diretor, roteirista e um dos produtores é o balneocamboriuense André Gevaerd, responsável pela produtora CinemaramaBC e pela casa artístico-cultural Arthousebc. O filme conta a história da inusitada amizade entre Renê, um recepcionista de hotel, e Copi, uma travesti argentina, fotógrafa, escritora e poeta amadora, que vive de fazer programas, na noite da cidade litoral catarinense.

Livro e filme falam de solidão, em uma Balneário Camboriú descrita como uma curva de rio, na qual a alegria e a sujeira turística humana se encontram com rejeitados, que buscam na cidade um local para refazer suas vidas. “Ouvir que essa imagem [de BC no livro] é transmitida com fidelidade [no curta] me deixa satisfeito e com um sentimento de missão cumprida”, diz o diretor. Para ele, Balneário Camboriú é uma cidade complexa, reflexo de quem a visita, existindo na verdade diversas cidades, de acordo com a subjetividade e interesse de cada pessoa.

O cineasta revela que a transição do romance, de 111 páginas, para os 18 minutos e 44 segundos do curta, não foi tarefa fácil. “Um filme é só um filme, e isso fica mais dramático quando sabemos que um curta é só um curta”, comenta André. Ele fez várias consultas ao autor do livro, que, por sua vez, deu total liberdade na adaptação. “Isso foi bom e ruim ao mesmo tempo: por um lado, deu possibilidade de mergulhar no livro e abertura para eu mesmo eleger as fantasias que levaria para a versão do curta-metragem; por outro, acabou se tornado uma tarefa complexa, visto o curto espaço de tempo que teria para tentar trazer seu universo narrativo para a tela”, diz Gevaerd.

No romance “As Fantasias Eletivas”, Schroeder discute a relação entre literatura e fotografia, por meio de Copi, que escreve a partir de imagens que captura numa câmera Polaroid. As fotografias da solidão que a personagem via em um pino de alarme de incêndio, num corredor vazio, no corredor do ônibus, num relógio, e mesmo em placas de trânsito, têm destaque no livro. O cineasta diz que os poemas e as fotografias de Copi transcendem para o curta de formas diferentes. No curta, as fotografias aparecem na tela apenas em forma de “easter-eggs”, que os leitores de Schroeder vão reconhecendo à medida que o filme caminha. “Como principal condutor da narrativa, pareceu mais importante, para contar essa história, uma investigação profunda à alma e essência das personagens”, expõe André.

O diretor e roteirista esclarece: “No livro, mesmo a narrativa, as fotos e as poesias vêm em camadas e convidam o leitor a ir e vir com liberdade; em um filme, não podemos nos dar a esse luxo fruidor”. Gevaerd é grande admirador de “As Fantasias Eletivas”. “É uma obra-prima da literatura, não reconhece quem não quer”, exalta. “É livre, anárquico, profundo, leve, ácido, punk, sublime: uma obra que nos remete a ver, sentir coisas e me motivou a tentar levar esses mesmos sentimentos a outras pessoas”, completa.

 

Elenco afiado

Um dos destaques do curta-metragem “Copi” é o elenco, cujos protagonistas são interpretados pelo catarinense Renato Turnes e pela atriz transsexual argentina Mariana Genésio Peña. A intérprete de Copi é uma celebridade no país vizinho, com quase 440 mil seguidores no Instagram. Ela ganhou destaque na mídia portenha em 2015, quando apareceu na cerimônia do Oscar com seu agora ex-marido, Nicolás Giacobone, vencedor do prêmio da academia norte-americana naquele ano como corroteirista do filme “Birdman”. A atriz é conhecida por projetos para teatro, cinema e televisão como: “Animal”, “O Marginal”, “Pequena Victoria”, “Arena” e “El Tilo”.

Renato Turnes, de Florianópolis, é ator, diretor e roteirista de teatro e cinema com vasta lista de trabalhos no currículo, tendo trabalhado com a cineasta Tânia Lamarca em 2013 no longa-metragem “Ensaio”. Em 2015, recebeu o Troféu Isnard Azevedo em reconhecimento à sua contribuição ao teatro produzido em Florianópolis. “O elenco foi um grande acerto”, diz o diretor. “Só tenho a agradecer pela competência e entrega do Renato e da Mariana, que conseguem sustentar as personagens, apresentando camadas e mais camadas ao público e tornaram tudo em poesia”, destaca o cineasta.

Gevaerd diz que o tempo de preparação do elenco para o filme foi pequeno. “Fizemos uma breve preparação e alinhamos as ideias alguns meses antes, mas ensaiamos somente alguns dias, próximo de iniciar a produção, e, em pouco tempo, Renê e Copi estavam lá, em cena, vivos”, explica. O ator Renato Turnes comenta sua atuação no curta e pequenos prolongamentos das cenas que permitiram aos atores atuar em silêncio, de forma corpórea. “A performance começa segundos antes da ação e dura até momentos depois do ‘corta’. Acredito que exista um estado pré-performático durante toda a filmagem, que torna os corpos dos atores comprometidos com a paisagem dramática do filme”, explica Turnes.

O intérprete de Renê diz que tais espaços de atuação em “Copi” são momentos nem sempre ensaiados, mas naturais durante as ações dos atores. “São escolhas da direção e da montagem usar esses momentos, sempre bonitos, mostrando coisas que não estavam escritas, experiências físicas que vão além das palavras, na forma final do filme”, sustenta Renato, que explora essa técnica numa cena em que uma prostituta rejeita o personagem Renê no corredor do hotel em que ele trabalha e a câmera permanece no ator, prolongando a cena. Turnes, que também é documentarista, sobre adaptação de uma obra literária para as telas, diz: “Um filme é uma linguagem nova para aquela história, resultado da colaboração criativa de diversos outros autores, como o roteirista, o diretor, o fotógrafo, os atores, e, no fim, o montador, que interferem com suas visões na estrutura original que o escritor desenvolveu”.

Ele diz que o livro se configura como uma tela, na qual o ator também pinta o personagem. “O filme é também uma materialização do que apenas existia, de forma muito privada, na cabeça dos leitores, e Renê passa a ter meu corpo, minha voz, minhas sensações e minhas expressões dos conflitos que o movem, portanto, é justo que eu o tome para mim”, declara. Sobre a temática da solidão da personagem, Renato ressalta a busca pela transição. “Mais importante que a solidão da personagem, que é um conceito estático, é a possiblidade de rompimento dessa paralisia que surge quando ele encontra Copi”, ilustra. “Como ator, é mais interessante focar nesse movimento, porque ele gera uma transição, uma curva que permite ao personagem terminar diferente do que começou, e a mim, como ator, desenhar um trajeto afetivo”, complementa.

Ao final da exibição, na abertura do festival de Jaraguá, está programado um debate com o diretor do curta, André Gevaerd, e o escritor Carlos Henrique Schroeder. Toda a programação, que se encerra no dia 30, poderá ser acompanhada pela internet, sendo cerimônias e filmes de temática diversas exibidos no canal do Festival no YouTube e de temática “Diversidade” exibidos na plataforma InnSaei.tv. Detalhes, filmes selecionados e programação são encontrados nas redes sociais do Festival no Facebook  e Instagram. A seguir o diretor André Gevaerd, que está produzindo um longa-metragem com a mesma história, filme que receberá o nome do livro “As Fantasias Eletivas”, comenta sobre a expectativa para o festival, o desafio de fazer cinema no Brasil e detalhe da trilha sonora do curta, composta por canção original do roqueiro argentino, falecido, Luis Alberto Spinetta.

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Qual sua expectativa para o Festival de Cinema de Jaraguá?

Todo festival nos dá chance de encontrar o público. Ser o filme de abertura de um festival, que já está em sua quarta edição, é um prazer imenso. Fazemos filme para isso, para contar histórias, mas de nada adianta se não tivermos janelas reais de encontro com o espectador. O Festival de Cinema de Jaraguá do Sul é uma delas.

Cinema no Brasil é um grande desafio. Quais as dificuldades na produção do curta “Copi”? E como está a produção do longa? A ideia é manter o elenco?

Sempre foi e sempre será difícil produzir cinema, onde quer que se esteja. Não podemos pensar que em Hollywood ou na Europa seja diferente. Se temos vontade de fazer, é possível. E foi nessa vontade que conseguimos viabilizar a produção, caminhando passo a passo para tornar possível sua realização. Não posso deixar de mencionar a LIC BC (Lei Municipal de Incentivo à Cultura), prêmio de Cultura de Balneário Camboriú, que nos deu condições de pagar os custos principais de equipe e equipamento, e também os apoiadores que acreditaram no projeto, como os hotéis Plaza Camboriú e Hotel Blumenau. Estamos sempre trabalhando em cinema. Um projeto nos persegue por anos e anos: é como casar, construir um lar e ter um filho, a cada projeto que passa. E esse filho passa a nos trazer alegrias e tristezas. O curta “Copi” felizmente nos trouxe sempre muita alegria. Não podemos falar o mesmo do longa “As Fantasias Eletivas”. Em meio a  esta confusão de covid e falta de celeridade na administração pública, está sendo uma tristeza. Esperamos que isso passe logo e que possamos voltar a trabalhar em breve.

Como você chegou na música de Luis Alberto Spinetta? Qual a sua relação com o rock argentino?

Algumas das conversas mais prazerosas que tive com o Carlos Schroeder, quando estava adaptando o livro, foi a música. Ele é um escritor muito musical e sonoro, e, logo que começamos a conversar, isso ficou cada vez mais claro. Tivemos então o prazer de pesquisar e conhecer. E o acaso sorriu para nós, que acabou nos deixando em uma série de situações que nos encaminharam a conseguir incluir a música do poeta máximo do rock hermano. Temos muito a agradecer a toda a família Spinetta por isso. A música realmente dá um tom preciso a relação de Copi e Renê, e caiu como uma luva. Coisas que acontecem. Acaso, coincidência ou destino: escolha.

 

 

 

André Gevaerd: diretor e roteirista do filme

Renato Turnes: protagonista do curta

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