Tirotti inaugura exposição on-line, com imagens em 360 graus

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Amcle Lima

Numa postagem no Instagram que anunciava sua exposição on-line, o artista visual Nilton Santo Tirotti declarou: “O vazio tem me acompanhado bem de perto neste ano”. A publicação era acompanhada por um vídeo de seu ateliê sendo esvaziado. Para a alma melancolizada pela pandemia, a frase pode ter um efeito um tanto quanto devastador. Mas não era isso o que o artista queria expressar. Questionado pela Revista Francisca, Tirotti esclareceu: “Ver aquele vazio foi uma sensação de liberdade total e senti o ateliê quase me pedindo por novos projetos”. E acrescentou: “Algo em que acredito dos nossos vazios é que são grandes potenciais de profundas riquezas”.

Essa afirmação, desconcertante em tempos tão tristonhos, pode ser uma interpretação para o nome da exposição: “A optação de rumo”. O que você faz com o seu vazio? Tirotti fez uma exposição on-line com imagens captadas em 360 graus no seu próprio ateliê.

Chegando à mostra digital, o internauta é convidado para a videoarte “Um morar”, projeção sobre tecido que discute a junção de uma casa/ateliê. À direita, o visitante encontra a instalação “Rumo”, na qual uma escada misteriosa une duas fotografias propondo um diálogo sobre escolhas e a reconstituição do ser.

Sem mais spoilers, a exposição traz ainda as videoinstalações “Dissipação” e “Conexão”, além dos trabalhos com fotografia “Rastreados”, “Reapresentar” e “Mapa de sentidos” (esse último uma série de imagens dispostas sobre a bancada do artista).

Detalhes das obras podem ser consultados nesta postagem de Tirotti.

Financiada por edital da lei Aldir Blanc, que foi criada na metade desre ano para garantia de renda aos trabalhadores da área cultural, “A optação de rumo” pode ser visitada até 3 de fevereiro de 2021. A exposição foi inaugurada no meio desta semana e está instalada no site da 360up, produtora especializada em realidade virtual, e pode ser acessada aqui. Você confere outras videoartes e trabalhos de Tirotti no canal dele no YouTube  e em seu blog. O artista também divulga as novidades em suas redes sociais: Instagram e Facebook.

A seguir um bate-papo com Tirotti sobre a exposição.

Os trabalhos expostos foram pensados para esta exposição ou você selecionou trabalhos seus que se adequavam a proposta?

A proposta da exposição é “a realidade de um espaço real”, ou seja, o meu ateliê. Então, trouxe dois trabalhos já realizados diretamente no meu atelier. Um deles é “Dissipação” no qual convido as pessoas para entrar nos meus pensamento, e por isso é projetado num papel frágil. O outro é “Um morar” que traz a visão dos conflitos de ideias do ambiente de trabalho e do cenário cultural que vivemos atualmente. Uma pegada na tensão pensando no que poderá vir ainda. Por sua vez, “Mapa dos Sentidos” são seis fotos e quatro delas são frames de um trabalho de videoarte intitulado “Sujeito” que foi realizado na individual “Minudências”, na Galeria Municipal de Arte Victor Kursancew, em 1998.

As exposições on-line têm a possibilidade de popularizar as artes visuais? Como você percebe o alcance desse tipo de exposição?

Com o aumento das exposições on-line, estou visitando bem mais exposições do que antes. Popularizar, por sua vez, é um conceito complexo. Ainda mais se tratarmos de algo visto como eletivo como é a arte. Afinal, mesmo nas escolas, a arte é tratada como algo longe das pessoas, distante da realidade. Quanto a popularizar eu te respondo que, como qualquer assunto ou evento disponível na internet, ganha de popular o acesso. Defendo que a sensação plena da arte é quando nos permitimos absorver o que cada exposição oferece. A arte contemporânea possui um rótulo de ser de difícil entendimento, mas eu gosto de ilustrar como uma conversa entre duas pessoas. Presencialmente, podemos ouvir e perceber o que o corpo fala, sentir a energia da outra pessoa. A arte é igual: trata-se de uma conversa entre sentimentos. No modo on-line, conseguimos ver uma grande diversidade de propostas artísticas do mundo todo e isso é ótimo. E se reunimos mais informações, algo que espero acontecer na minha, então podemos atingir o sentir.

Como a pandemia tem afetado seu trabalho como artista visual? Nesta exposição, você percebe essa influência?

O meu trabalho tem alguns momentos específicos: as observações do entorno, as inquietações de mundo e pesquisas acerca da imagem. Ou seja, as decisões e escolhas para a fase de produção propriamente dita. Na pandemia foi possível me dedicar para as observações e pesquisas, mas as necessidades de produção e fruição foram bem prejudicadas.

Como foi a parceria com a produtora 360up e com Anderson Rosa na esposição?

Confesso que para desenhar a minha exposição foi mais difícil conceituar a linha curatorial do que a montagem virtual 360 graus. Me deparei com várias empresas tecnicamente preparadas, mas somente para o mercado empresarial. Pelas várias ausências no retorno, fui a campo, até mesmo em escolas de design. Foi onde encontrei com o Anderson Rosa, artista visual e designer. Ele prontamente topou se aventurar no projeto, visto que parte do conceito era ser acessível em recursos financeiros e de equipamentos. Ele conseguiu então montar o layout da exposição. Porém, ao buscar uma plataforma para hospedar, nos deparamos com uma plataforma que não permitia inserir os vídeos da exposição, outra que não atendia a resolução suficiente para as imagens… E o pior de todos: uma empresa que não respondeu aos repetidos pedidos de aquisição da hospedagem. Mas, na arte, a gente não desiste. No meio de alternativas, encontrei o Marcelo Martins, da 360up, um profissional objetivo e sensível aos problemas de seu cliente. Agora é preciso mencionar: deixou de ser uma relação comercial para se tornar uma parceria brilhante. Mesmo reconhecendo receber um material frágil e diferente nas suas especificações técnicas, o Marcelo topou me salvar e conciliou o material à hospedagem na sua plataforma. Coisas boas que acontecem na cadeia de produção criativa. Sou muito agradecido nesse projeto ao Anderson e ao Marcelo.

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