“Tem biografia minha na biografia da Perla”, diz o autor de livro sobre a cantora

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A Francisca #16, de fevereiro, divulgou o lançamento do livro “Perla – A Eterna Pequenina” do escritor joinvilense Marinaldo de Silva e Silva. (Na home do site, você pode acessar a versão virtual da edição clicando na capa em destaque; a matéria está na página 7.)

Confira uma entrevista com o escritor joinvilense, que, mesmo em respostas enviadas por e-mail, não abre mão da poesia. Mais adiante, um trecho do livro, escolhido por ele, para degustação exclusiva dos leitores da Francisca.

O livro está disponível para venda. Encomendas pelo WhatsApp do autor, (47) 99605-7586.

Para escrever uma biografia a partir de uma entrevista com o biografado é quase necessário ter a confiança de um terapeuta, de maneira que o biografado consiga contar histórias dos cantos de sua vida. Você comenta, no seu Instagram, que as conversas com Perla foram regadas a vinhos e lágrimas. Como foi essa relação de intimidade com a cantora?

A relação de intimidade com Perla, construída no decorrer desses últimos quatro anos, foi intensa, complexa e enigmática. Para o livro existir e montar a história na ordem que eu imaginava, contei com o apoio de reportagens, fotografias e revistas antigas. Observei sites que já se pronunciaram sobre ela, tive o apoio de “testemunhas oculares”, fãs que visitaram e participaram da vida da cantora e dois encontros com ela, cada um deles com oito dias de convívio. Nesses encontros, pude sentir a força da mulher Ermelinda, nome de batismo de Perla, e o carrossel que foi conviver com ela. Mulher de hábitos muito diferentes dos meus. Por ter ficado hospedada em minha casa, tive o privilégio de vê-la menos artista e mais senhora. Com todos os hábitos típicos de uma mulher convencional: oração, momento de silêncio, pitacos nas refeições, dicas de como cuidar das plantas, pedidos para passear sem lugares predeterminados. Numa aceitação, sempre, de que somos diferentes um do outro, e é justamente isso que nos faz tão semelhantes. Acredito que ela percebeu esse meu apreço, esse meu calar, esse meu olhar, meu espanto e meu encanto por estar diante de alguém que falava com formigas, com plantas, que cita a “Virgem” a cada uma hora e fala da mãe falecida como alguém que está ao seu lado o tempo todo. Para a construção do afeto, também me despi. Contei das minhas fraquezas, dos meus pais mortos, da minha vida como órfão aos 15 anos, dos meus tempos em que vendia “bacucu”, espécie de marisco, do mangue, pelas ruas do bairro Fátima e do bairro Guanabara. Criamos um vínculo pela nossa trajetória e pela maneira “descalça, sem maquiagem, sem etiqueta e sem grife” com que nos apresentamos.

Foi sua primeira experiência com biografias?

Teoricamente, sim. Digo teoricamente, porque tem tanta vida minha dentro dos livros anteriores, ou seja, tem muita autobiografia deste escritor nos meus personagens. Meu primeiro livro infantil, “Poesia Para Crianças Quando Ficarem Adultas”, é todo sobre minha infância. Não tem essas evidências, mas as reflexões do personagem são minhas, só muda o nome. Assim, construí “Perla – A Eterna Pequenina”, contando a vida da cantora e usufruindo do que ela deixou nas entrelinhas para eu capturar sua poesia e transpor isso para sua história. No fundo, tem biografia minha também, dentro da biografia de Perla, se é que me torno claro. É a história dela contada pelo meu alicerce poético.

Um trabalho de escrita de três anos e com tantas histórias para contar, em algum momento deve surgir algum cansaço. Teve algum momento em que a escrita deu aquela travada?

Construir o texto foi um exercício de preocupações. Desde o começo, já sabia que a narrativa seria feita em ordem cronológica. Isso facilita tanto para o autor, que vai separando os temas por meio de uma linha do tempo linear, quanto para o leitor, que não precisa se preocupar em ir e voltar durante a leitura. Esse recurso é interessante, mas fiquei pensando no público de Perla. Muitas são pessoas não tão acostumadas com a leitura. Alguns são dos rincões mais distantes do país, outros têm dificuldade de leitura devido à idade avançada… Assim, eu cativaria o público menos dado à leitura, com um texto linear que buscava ao mesmo tempo alegrar os “críticos” com uma narrativa mais pautada na linguagem literária. Obviamente, em alguns momentos, tive que pausar. Isso aconteceu menos pela minha cabeça, que fervilhava, e mais pelas pausas feitas pela própria cantora. Num exercício constante de paciência, tantas vezes pensei em abandonar o projeto pelo fato de que eu precisava de respostas e elas costumavam demorar semanas até. O livro poderia ter avançado mais, inclusive, para outros setores e outras histórias, mas Perla cansou de responder em algum momento. No meio do trajeto de pesquisa, perdeu duas irmãs e seu papagaio de estimação. Isso arruinou com o seu ânimo.

Como é escritor independente? Você teve que bancar do bolso essa primeira edição?

Ser escritor independente é ser utópico, sonhador, viajão, tudo aquilo que as pessoas num momento de crueldade podem lhe falar. É ser um apostador, é viver crendo que tua história chegará, em algum momento, numa mão que lhe conduzirá para outros patamares. Ser escritor independente é ser chique, ser esnobe. É ter em sua volta uma aura de que você sabe tudo e conhece todas as palavras. Também podem achar que você é rico, que pode investir em leitura, algo que é supérfluo. Afinal, para que serve a literatura? Ser escritor independente é ser provocativo, é ter capital social e cultural, é ser bem visto. É ser convidado para uma palestra para alguns alunos que não querem ouvir sobre literatura e encontrar outros que conhecem tudo sobre José Saramago, por exemplo. Ser escritor independente é assumir a sua função. É aceitar-se um profissional que batalha, que vai à luta. É exercer uma profissão que não é profissão, o que por si só já é uma loucura. É como ser algo que não existe, é como não-ser.

Para esta primeira edição banquei toda a publicação: 650 exemplares ao custo de mais de R$ 20 mil. Custo alto devido à qualidade do papel e do material gráfico, ao pagamento de dois artistas, um gráfico para recuperar as fotos e outro da fotografia para compor a capa. Pagamento de um revisor de texto, de um diagramador, de outro profissional para construir um site para as vendas, além da própria gráfica. Uma edição limitada e luxuosa com 214 fotografias e todo feito em papel couchê, com 294 páginas. Investir esse valor, no meio de uma pandemia, sabendo que faltava uma grande parte e você teve que emprestar dinheiro faz do escritor independente uma outra coisa além de tudo que já escrevi: um louco rsrsrsrsrs. (mantenha os risos, por favor).

Risos mantidos!

Trecho do livro selecionado pelo autor

Nessa época estudava no Colégio Cristo Rei e o que mais lhe atraía era espiar os ensaios do pai, que tinha um grupo musical, Trio Los Brillantes. Moravam num sítio, onde ele, patrono e chefe do lar, fazia de tudo para “trazer um bocadinho de coisas pra casa”. O velho Pedrozo era uma fortaleza. Era carpinteiro, cantor, sapateiro, cabeleireiro, barbeiro, tratador de cavalos. Enfim, era incansável! Nesse ambiente, propício à liberdade, Perla enfrentava o pai, contrariava sua proibição quanto a ficar no meio dos ensaios do trio, e, escondida, se deliciava com os boleros envolventes e cheios de casos de amor cantados pelo Paraguai. Foi sua primeira escola musical. Dos bastidores, que eram as paredes da casa, das gretas, por trás dos armários, a menina acompanhava as típicas músicas paraguaias, as polcas, as guarânias e os valseados, e ia decorando uma a uma as músicas que tanto encanto causaria anos mais tarde nos palcos por onde se apresentaria: La Barca, Índia, Malageña, Besame Mucho, músicas do grupo Los Panchos, e tantos outros sucessos. Foi num desses ensaios que um dia ela bateu o pé e com uma audácia temerosa para a época em que vivia, fez-se ouvir, mostrando ao pai o poder estrondoso de sua voz. Todos pararam para ouvir. Realmente foi espetacular, embora o pai, admirador, mas, apesar de tudo crítico, e que já tinha escutado a filha cantarolar pelos corredores da casa, pelo quintal, quando brincava com os cães, ainda não tivesse entendido que no grave daquela voz é que se escondia a beleza selvagem e exótica que seria admirada por tantas décadas.

No fundo, o velho pai preferia o timbre da outra filha, da pequena Odila Pedrozo, rebatizada como Fanny, artisticamente, pouco tempo depois, para formar com a menina de voz grave, a pequena Ermelinda, Las Maravillas del Paraguay. Mas um grupo musical não combinaria uma Ermelinda, era preciso um nome mais impactante para consagrar cada uma das meninas. Qual nome, porém, combinaria com aquela latino-americana com olhos de jabuticaba, com os cabelos negros como a asa da graúna, em alusão à índia Iracema da literatura de José de Alencar? Foi então que a mãe das meninas se lembrou de uma senhora que conheceu, chamada Perla, ou pérola, na tradução portuguesa. Uma senhora muito elegante que, num dia, num festejo onde ela trabalhava como governanta, numa mansão cheia de empregados e copeiros, estava lá, de coque, vestida de preto, com um colar suntuoso de gotas brancas que Dona Lídia, mãe de Perla, nunca tinha visto. Ela se aproximou, num momento em que provavelmente servia alguém, ou arrumava os buquês de flores sobre a mesa, e perguntou: “Desculpe senhora, mas que coisas lindas são essas bolitas em seu colar?”. A dona, que também se chamava Perla, respondeu: “São perlas”. Dona Lídia nunca mais esqueceu, até anotou o nome, e disse que um dia colocaria esse mesmo nome numa filha porque era a coisa mais linda que já tinha visto. Foi em homenagem a esta lembrança, pensando naquele dia, naquela festa, onde o marido inclusive, fazia seu alegre show musical, já que era comum ele ani-mar as festas naquela região, que Ermelinda passaria a ser conhecida como PERLA. Com nome artístico garantido, rebatizada, que a menina realizava um dos primeiros sonhos, e começou a imagi-nar todas as plateias que as aplaudiriam.

 

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