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Um alerta no mês do combate à violência contra crianças

 Cláudia Dreher e Alexandre Monich, especial para Francisca

Na manhã de 4 de maio – o mês em que transcorre a Campanha Contra a Violência às Crianças e Adolescentes –, uma barbárie contra quatro crianças com menos de 2 anos de idade e duas professoras de maternal, na cidade de Saudades, Oeste de Santa Catarina, levou mais uma vez o nosso Estado ao noticiário nacional da maneira mais triste possível.

Saudades é uma cidade pequena, pacata, familiar. A tragédia chocou e mobilizou os moradores. O que fazer ante uma violência que interrompe vidas de crianças e famílias? Como lidar com esse turbilhão de emoções?

A violência contra crianças, infelizmente, é realidade diária. Ceifa vidas e histórias. Só nos registros oficiais de 2020/21, houve um aumento de 56% das violações de direitos de crianças e adolescentes que ocorrem na casa das vítimas. Em 69% desses casos, foram relatadas violações diárias. As violações são categorizadas em cinco eixos: maus-tratos, negligência, violência psicológica, violência física e violência sexual.

As crianças vítimas de violência sofrem no presente. Hoje, agora, muitas crianças estão sendo agredidas, humilhadas por familiares.

Maio é um mês para refletir sobre a violência contra as crianças. Uma reflexão sobre nosso processo civilizatório. Como humanos, precisamos refletir sobre nosso projeto de humanização das relações. Qual será o destino da humanidade quando generalizamos a violência, a fome, o abandono e a negligência contra as crianças?

Precisamos procurar entender a fenomenologia que leva o ser humano a agir com crueldade conta seu semelhante. Nesse tempo de pandemia, temos assistido a um descaso e um descompromisso com nosso projeto coletivo de humanidade. Algumas dessas cenas nos levam a acreditar que regredimos ao tempo da barbárie, nos remetem às histórias bíblicas de Caim e Abel.

A luta da humanidade pela proteção ao fraco, indefeso, órgãos e viúvas da época, mobilizaram as pessoas para a construção de projetos pautados no bem coletivo. Os dez mandamentos, por exemplo, foram um marco, apenas um dos exemplos, da luta pela proteção da dignidade humana. O Estatuto da Criança e do Adolescente segue nessa linha por construir marcos de proteção coletiva para os mais fracos e indefesos.

O enfrentamento da violência contra crianças passa pelo estabelecimento de marcos legais de defesa dos indefesos. Contudo, as leis não conseguem mudar as pessoas. É o humano que deverá assumir a humanidade. A rede de proteção à criança deverá ser uma rede humanizada, sem compromisso com a humanidade, com o processo civilizatório de respeito, cuidado e proteção coletivos, pouco se pode esperar.

As leis devem produzir atitudes concretas de proteção, acolhimento e afeto. O ser humano precisa de proteção. Sem essa atitude, ficamos à mercê das forças da natureza, da brutalidade e da insanidade. Nada é mais perigoso para a humanidade que a própria desumanização manifesta pela indiferença à necessidade do outro.

Os gestos dos cidadãos de Saudades poderão reparar em parte a perda das famílias. O consolo mútuo poderá construir um espaço de aconchego para essa dor irreparável desses pais e familiares.  Os familiares e amigos das vítimas dessa tragédia precisarão de acolhimento. Sem esses gestos, a dor será insuportável.

No Brasil afora, milhares de crianças estão à espera por gestos de proteção. São crianças que precisam lidar todos os dias com agressões, violências. Indefesas. Confusas, angustiadas, tristes, desesperadas.

Somos frágeis, mortais. Estaremos sempre sujeitos às tragédias como a ocorrida em Saudades. Porém ainda é tempo de evitar a violência diária sofrida por crianças todos os dias. Muitas delas são agredidas por aqueles que deveriam lhe oferecer proteção, carinho, aconchego, alegria e esperança.

Talvez seja essa pergunta que precisamos responder nesse mês de maio de 2021: quais gestos concretos de acolhimento e proteção as crianças podem esperar da humanidade hoje?

 

Cláudia Dreher é consultora e ex-integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA); Alexandre Ari Monich é teólogo, psicólogo e mestre em educação.

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