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Uma entrevista com Ramon Lima, sobre “Desertos que Dançam”, seu livro de estreia

Amcle Lima

Ramon Lima é professor de sociologia, poeta, produtor cultural de Blumenau, e vem se aventurando como DJ. Escreve desde 2012, mas as primeiras publicações foram feitas em 2016. Sua poesia aborda questões sociais e reflexões sobre a vida, sobre estarmos no mundo “cheios de querer ser”, como diz um verso. Quem acompanha Lima nas redes sociais (@ramonlimapoeta, no Instagram) percebe logo que sua postura política é crítica e atuante. O poeta trabalha em ações de direitos humanos e já realizou diversas oficinas em projetos sociais, escolas e festivais culturais alternativos. Tem uma ligação especial com o rap de Blumenau.

Ramon colaborou na organização de eventos de rap e slam, como Slam Blumenau, Batalha da Prainha e Sarau Urgente, além de ser membro do Coletivo Colmeia. Em dezembro de 2020, publicou seu primeiro livro: “Desertos que Dançam”, editado com verba do Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Blumenau. Dois elementos da publicação se destacam, logo à primeira vista: o poeta não ameniza para o leitor, nem suaviza nas palavras, e o livro é uma surpreendente construção visual de poesia concreta. Sobre a primeira, ninguém pode reclamar que não foi avisado. A epígrafe do livro, com palavras do autor, é a seguinte: “Porque nem todas as coisas são belas, algumas só precisam ser ditas”. Num dos versos mais cortantes, o escritor indaga sobre a suposta conivência de Deus na violência contra mulheres, questionando a postura machista de algumas religiões.

A parte visual do livro é uma grata surpresa. Construída em parceria com a arte e diagramação da designer e tatuadora Paula Lana, também de Blumenau, embala os poemas em imagens que fazem referência ao dia a dia urbano do século 21. Lemos os versos em tíquetes numerados, desses que pegamos para esperar na fila da padaria; em desenhos que mostram as paradas da linha de um metrô; em uma arte que simula a localização no Google Maps etc. Este último, por sua vez, nos dá o endereço do poeta: “Avenida Carlos Drummond, esquina com Mario Quintana, em uma rua sem jardim”. Perfeita descrição: poemas, sem flores de enfeite. Poesia que verte da rua, do rap, do slam, do sarau, da arte de rua, dos muros e da pichação.

 

Confira uma entrevista com Ramon Lima.

 

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De onde vem sua relação com a poesia concreta?
Creio que venha de um referência até mais recente, que é o Renan Inquerito, rapper, poeta e professor de geografia de Osasco (SP) que trabalha com a “Parada Poética” e Cooperifa, movimento cultural em São Paulo. A parte do grafismo, do visual também, muito vem do Paulo Leminski.


Qual a sua participação na arte visual do livro?

Eu e a Paula trabalhamos muito em conjunto, desde a seleção, a separação, tons de cores, como separar, qual explicação e narrativa criar. A grande parte ficou na criação dela. Em outras, dei uma ideia, uma referência, como nos poemas da “fila de espera”, da “segurança”, “onde estava deus” e alguns outros que formavam imagens e formas para mim. Parafraseando Clovis Risco, artista importante para nossa cidade: “Desculpa, mas eu vejo coisas”. Comentei com a Paula algumas ideias e referências dos meus trabalhos anteriores em zines, desenvolvidos pela Síntese Criativa.

 

 “Desertos que Dançam” parece uma colagem de poemas de várias épocas. Confere essa impressão?

De fato, o livro é uma reunião de poemas de vários tempos, de 2013 a 2018. O primeiro capítulo é a produção mais antiga, de 2013. Depois vai se misturando, mas os últimos poemas são os mais recentes também, de 2018. Então tem uma certa ordem cronológica ali no meio.

 

Como foi a caminhada de divulgação e distribuição do livro?  

Está sendo irado ter um livro lançado, na rua, na praça, para todos poderem ler, ver e adquirir. Estou tentando colar meu nome no mapa e definir um pensamento vivo. Sigo vendendo o livro ao valor de R$ 30. Não sou um vagabundo qualquer, sou um vagabundo publicado agora. É como eu digo.

 

O escritor Marcelo Labes, na abertura de “Desertos que Dançam”, disse que as ruas invadem a tua poesia, na qual ele percebe a oralidade do slam e do sarau. Para mim, entretanto, a rua na tua poesia é a do muro, a da subversão da “pichação”. Você concorda com essa percepção? Algum verso teu já circulou por muros ou paredes de Blumenau?

A influência vem dos dois, mas eu comecei a pichar primeiro do que fazer, recitar e organizar sarau ou slam. Em Blumenau tem alguns riscos e poemas meus pelas ruas, mas faz um tempo que não picho.

 

Fale um pouco sobre a tua relação com o hip hop de Blumenau. Sérgio Vaz reconhece a poesia do rap. Você compartilha dessa percepção dele?
Sérgio Vaz é uma grande referência também, assim como Ferrez, Eduardo Taddeo. Rap é poesia, hiphop é poesia, está tudo ali, nas letras, nas melodias, na revolução, nos dilemas e no dia a dia. Com certeza compartilho dessa visão. Em Blumenau estou integrando o coletivo Colmeia, no GT.hiphop, onde estamos fazendo um programa de rádio agora, “Frequência Rap”. E também com planos para voltar com a Batalha da Prainha.

 

E essa nova vida de DJ? Está gostando dessa interação pela música?

Rock e rap sempre estiveram comigo desde a infância. Do Metallica à trilha sonora do gueto. Tenho diversos amigos DJs, gosto e sempre pesquisei muita música, seja eletrônica, vinil e hiphop. O convívio com DJs desde 2012 me fez ser amante dessa arte. O envolvimento com a cultura hiphop me fez entrar de vez nessa!

 

Em Santa Catarina, percebe-se um certo isolamento cultural das cidades. Você concorda? Como poderíamos ter mais interação?

O hiphop tem uma frente bem forte nesse sentido, diversos trabalhos sendo desenvolvidos para integrar o rap catarinense. De Joinville, Blumenau, Itajaí, Floripa e Lages. Projetos como Colisão Hiphop, de Itajaí, vêm interagindo e integrando todo o litoral, de Criciúma a Joinville também. Deixo a dica para conhecerem o projeto Colisão Hiphop e a Cypher mais pesada do Sul e Cypher Ramal 47.

 

Você é professor de sociologia. Parto dos teus versos, “Deus é pica reta, picareta é você’, para perguntar: como você percebe uma parcela da sociedade, de religião cristã, defendendo armamento e torturadores?

Não só professor de sociologia, como também fui criado na Igreja Católica, fiz comunhão e crisma. Estudei a Bíblia e não foi pouco. Nada do que se fala de religião na ordem política tem algo espiritual ou espiritualizado. Não é mais a intenção da religião; na política, opera-se apenas o domínio e a acumulação de poder. Os cristãos de hoje em dia em nada se parecem com Cristo.

 

Você não poupa o leitor: os versos sobre Deus e as mulheres estupradas, em “Desertos que Dançam”, são um soco na boca do estômago. É como você diz na epígrafe: “nem todas as coisas são belas, algumas só precisam ser ditas”. Nos dias de hoje, que outras coisas não tão belas estão precisando ser ditas?

Boa parte da estrutura política, religiosa e internacional tem que ser denunciada. Vivemos num governo dominado por militares, milicianos e criminosos, vendendo tudo para o estrangeiro, e multinacionais, estamos totalmente à mercê dos bancos internacionais também. Estamos vivendo a completude do golpe de 1964, uma continuação, a cereja do bolo. O Brasil está de volta ao mapa da fome, o jovem já não tem muita perspectiva. O rap, o hiphop, a arte, são saídas. Ou lutamos por nossos direitos ou a barbárie irá continuar. E isso é indispensável dizer.

 

O compositor gaúcho Nei Lisboa tem uma música que diz: “Estou na luta armada disfarçado de cantor”. No seu livro e nas redes sociais, sua posição política é bem aparente. Pergunto: você está na luta política disfarçado de poeta?

Sim, estou na luta política, de poeta. Sou militante socialista, servi ao Exército brasileiro, sou poeta, professor, estou na causa pela luta social, onde for. Uso das mais diversas formas para integrar a luta e a sociedade ao meu redor, na arte, educação, na música, no rap.

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