O relato do jornalista que foi pego pelas restrições da pandemia em viagem ao Peru

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Silvério Morais planejou uma viagem inesquecível ao país andino – com o ponto alto, claro, em Machu Picchu e suas conexões históricas e esotéricas. A pandemia, no entanto, o alcançou já no início da viagem e ele ficou um bom tempo retido em um hotel na cidade de Cusco. Aqui, o relato desses dias em que a angústia para voltar para casa era amenizada por situações de parceria e solidariedade quase irrestrita.

Se ficar isolado dentro de casa já é um desafio, imagina ter que ficar confinado em um quarto de hotel sozinho, vendo apenas da janela lugares que você tanto queria visitar. Assim foram minhas férias no Peru, em março. Consegui turistar somente nos três primeiros dias da viagem – que duraria 10 e acabou se estendendo por 13. No quarto dia, com o estado de emergência nacional por conta do coronavírus, todos os passeios foram cancelados e o país parou. Todos os aeroportos e as fronteiras fecharam. O jeito era esperar por um voo de repatriação, que não sabia ao certo quando viria. Sem poder sair da cidade de Cusco, o jeito era ficar no hotel dia e noite, com exceção de idas rápidas ao supermercado ou à farmácia. Diferentemente do que ocorre aqui no Brasil, por lá as ruas ficaram cheias de policiais e soldados do Exército após o decreto presidencial. Eles interpelam as pessoas a todo momento. Depois de três dias sem sair, fui comprar alimentos com um casal de brasileiros que conheci no hotel. Para ter uma ideia, os dois estavam de mãos dadas e foram obrigados a se afastar para continuar o trajeto. Seguimos então separadamente. Até dentro do mercado havia policiais. Para quem sonhava com passeios inesquecíveis por lugares históricos e paisagens exuberantes, ver aquela cena era uma mistura de medo e decepção. Para um apaixonado pela culinária peruana, que tristeza passar em frente aos restaurantes e ver as portas fechadas. E eu que achei que iria comer ceviche todos os dias por lá. A frustração só não foi maior porque ganhei uma amiga que é cozinheira de mão cheia. A querida Nicea preparou refeições maravilhosas para mim e outros brasileiros, na cozinha que a dona do hotel deixou aberta para os hóspedes, diante da situação. E esse foi o lado bom desse isolamento forçado. Acabei fazendo amigos que vão ficar para sempre na minha memória e no meu coração. Também jamais vou me esquecer dos exemplos de solidariedade que presenciei. Além de ver uma pessoa que eu havia acabado de conhecer cozinhar pra mim com o maior carinho do mundo, vi meu vizinho de quarto bater na porta para saber se eu tinha o que comer e dividir comigo bolachas e salgadinhos, mesmo sem saber quantos dias ainda teríamos que ficar naquele confinamento. Vi, em uma das tentativas frustradas de conseguir voo para o Brasil, duas jovens que também estavam sozinhas na viagem dividindo pão e presunto com os vizinhos da fila que formamos do lado de fora do aeroporto. Vi um brasileiro que mora em Cusco percorrendo a fila sob o sol oferecendo água para quem não tinha. Não pude conhecer as riquezas históricas de Machu Picchu, mas vi de perto a beleza da riqueza de espírito manifestada de várias formas. Vi um casal que abriu mão da privacidade no apartamento em que estava hospedado para abrigar uma jovem que não tinha mais dinheiro. Vi uma pessoa que eu não conhecia me dar um carregador de celular porque ouviu que eu tinha perdido e sabia que eu teria dificuldade para achar loja para comprar outro. Vi gente emprestando dinheiro para até então desconhecidos. Vi uma pessoa adiando o tão esperado retorno ao Brasil para que um casal pudesse voltar no mesmo avião. Chorei de emoção quando vi trocas de abraços de felicidade entre pessoas que conseguiam embarcar. E também com os abraços de consolo entre os que iam ficando pra trás. Vi uma sala de embarque vibrar cada vez que surgia mais um agora novo amigo. Vi um avião decolar impulsionado por aplausos e sorrisos de quem estava finalmente voltando para casa. Com esse meu exemplo, posso afirmar que polarizações, ataques e discussões bobas não nos levam a lugar algum. Éramos cerca de mil brasileiros lá no Peru. Se cada um tivesse ficado no seu canto ou se tivéssemos nos deixado influenciar pelas diferenças, estaríamos lá até agora. Foi a união que nos fez alcançar nosso objetivo mesmo estando num grupo de pessoas de diferentes idades, ideologias e classes sociais. Ali não tinha empregado e não tinha patrão. Era o mochileiro e o empresário com sua mala Louis Vuitton na mesma fila, na mesma angústia, na mesma luta.

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