Em forma de poesia, autor catarinense se despede do pai

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Amcle Lima

Marcelo Labes, editor e escritor catarinense, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2020, está concluindo o financiamento coletivo de seu mais novo livro de poemas, “O Nome de Meu Pai”. A obra é uma despedida de Alfredo Labes, pai do autor, diagnosticado com câncer em 2016 e falecido em janeiro deste ano. É, também, o retorno de Marcelo à poesia: seus dois lançamentos mais recentes foram os romances “Três Porcos” (2020) e “Amor de Bicho” (2021). Até sábado, 28 de agosto, você pode se credenciar para ser um dos primeiros a adquirir exemplar autografado do livro de Labes e também do primeiro livro de poemas do paulista Caio Augusto Leite, “Numa Janela Acesa a Noite Não entra”, acessando este link do site Catarse. Na pré-venda, cada exemplar pode ser comprado por R$ 40.

O apoiador também pode optar por comprar outros livros de Caio e Marcelo, de forma conjunta ou isoladamente, a preços promocionais, parcelando em até seis vezes, ou mesmo apoiar com valores menores, sem recompensa. Os dois títulos serão publicados pela editora Caiaponte, criada por Labes, pela qual o poeta e prosador publica seus livros e de outros autores. Escritor blumenauense, radicado em Florianópolis, Marcelo venceu o Prêmio São Paulo de Literatura no ano passado com o livro “Paraízo-Paraguay”, eleito como o melhor romance de ficção de estreia do ano de 2019. O mesmo título também foi o segundo colocado do Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, de 2019. Francisca conversou com o autor sobre o novo livro, sobre financiamento coletivo e sobre a vida de autor premiado. 

Como é esta vida dupla de editor e escritor?

É complicada. Por mais que eu goste de editar, cada vez mais tenho me voltado para a minha própria escrita. Claro que há livros que exigem publicação (seja por sua qualidade, seja pela urgência que demandam). Mas, como agora estou num projeto novo de romance, tenho tentado ficar afastado da editoria. Nem sempre é possível, porém.

Você é entusiasta do processo de financiamento coletivo? É uma saída para a literatura no nosso tempo?

Meu primeiro financiamento coletivo foi em 2016, para publicar “Trapaça”, um livro de poemas. Desde lá, aprendi muito com a ferramenta. A Caiaponte, minha editora, surgiu também de um financiamento – quando publicamos o meu ‘Paraízo-Paraguay” e “Nuvem Colona”, de Gustavo Matte e “Lugares Ogros”, de Telma Scherer. Mas também publiquei meu “Três Porcos” e “Amor de Bicho” me valendo do Catarse. Acredito que, além de ser uma forma de garantir a verba para a publicação do livro, o financiamento coletivo funciona muito bem como divulgação antes de que o livro esteja impresso.

Você pode falar um pouco sobre seu novo livro, “O Nome de Meu Pai”? Quando foi escrito?

“O Nome de Meu Pai” é um livro de poemas de despedida. Meu pai foi diagnosticado com câncer em 2016. Desde lá, iniciou-se um processo de desprendimento que só teve fim quando joguei suas cinzas no alto de um morro de onde dava para ver todo o vale em que ele viveu toda sua vida. Quando pensei que esses poemas deveriam ser publicados, engrossei o caldo: para contextualizar os poemas, trouxe o diário que meus irmãos e eu escrevemos em seu último mês de vida (em geral, são informações monótonas sobre remédios, hora de dormir e hora de acordar, mas que têm sua beleza); trouxe também uma carta que deixei escrita para meus irmãos e conversas de WhatsApp que tive com amigos queridos no decorrer dessa despedida que se demorava. Os poemas foram escritos nos durantes: enquanto cuidava do pai, enquanto me despedia e depois, quando ele já não estava mais aqui.

Pode falar um pouco sobre seu pai? Você disse que ele não costumava ler, mas leu os seus livros.

Meu pai foi operário da indústria têxtil até se aposentar, na década de 1990. Depois, foi vigilante, servente de pedreiro e sei lá o que mais. Até que a doença o fez ficar parado, definitivamente. Era também alcoólatra e fumante. Nunca conversamos muito, ele não era de muitas palavras, mas no fim de sua vida nos aproximamos o tanto que nunca estivemos perto durante a minha vida inteira. O nome do livro tem a ver com isso, sim, de ele não ter escrito nada que não fosse seu nome nas assinaturas exigidas nos documentos, mas ele lia, e apesar de nunca termos conversado sobre, sei que leu a maioria de meus livros. O último, “Três Porcos”, fez sair dele uma reclamação, porque o livro é carregado de expressões baixas enquanto narra uma história de abuso sexual contra uma criança. Fiquei orgulhoso da reclamação. Aquilo queria dizer que ele não estava dissimulando e que realmente lia meus livros.

O que mudou para você após o Prêmio São Paulo de Literatura? A sina do escritor premiado é mais fácil?

Ainda não sei o que mudou. Na minha vida prática, sim, posso dizer que houve reviravoltas: com o dinheiro do prêmio – apesar do sequestro do imposto de renda –, consegui comprar o apartamento onde já morava, aqui em Florianópolis, e definitivamente me estabeleci por aqui. Quanto a ser o vencedor do prêmio, simbolicamente, não consigo medir isso. Sei que chama a atenção, sei que sou convidado para eventos (virtuais) e sei que “Paraízo-Paraguay” tem sido bem lido, até hoje.

Fale um pouco sobre o livro do Caio Augusto Leite, “Numa Janela Acesa a Noite não Entra”?

Caio Augusto Leite me é uma incógnita, apesar de ser meu grande amigo. É que a amizade não permite a mistificação, parece. Mesmo assim, o autor de “A Repetição dos Pães” e “Terra Trêmula”, seus dois livros de contos, já mostrava em suas narrativas o poeta que era. No entanto, ainda não havia um de poemas dele. Numa janela… tem em si vários livros, um deles escrito sob a pandemia, outro lírico (agridocemente lírico), e há mais, porque a literatura de Caio não tem fundo, não se alcança o fundo de sua escrita.

Não encontrei um livro teu nas livrarias e bibliotecas de Joinville que tenho acesso. Isso é um problema de distribuição da tua editora? Ou um desinteresse dos livreiros e bibliotecários de Joinville?

Não há problema de distribuição, mas uma escolha: vender diretamente pela internet ou por editoras parceiras. Fica muito caro para uma editora pequena participar de toda a cadeia do livro (distribuidoras, livrarias), então a distribuição se dá diretamente entre a Caiaponte e as livrarias parceiras, ou entre a Caiaponte e seus leitores, já que o acesso à internet permite que as pessoas adquiram seus livros. Claro que uma editora grande consegue fazer os livros chegarem a todos lados, de norte a sul do país, mas pagam por isso, e pagam bem. Nós, aqui, lutamos para manter a editora aberta e todo custo adicional nos sai muito caro.

 

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