Educação é um “andaime” para a evolução da humanidade, diz professora

“Uma experiência lúdica”, diz o poeta Caco de Oliveira sobre curta-metragem
17/11/2021
Acredito na vida, sempre
25/11/2021

Supervisora na Escola Municipal Nelson de Miranda Coutinho, em Joinville, Rosiane Ribeiro Justino foi destaque nacional, como uma das protagonistas da campanha “Educação à Flor da Pele”, do Instituto Península, que virou exposição fotográfica em São Paulo e tema de reportagem do Jornal Nacional. Rosiane e outros quatro professores representaram o que mais de 1 mil educadores brasileiros desejam para a profissão, segundo pesquisa do Instituto Península. Cada um deles teve uma palavra “tatuada” em tinta pelo corpo com as palavras citadas mais vezes pelos professores durante a pesquisa. Rosiane escolheu a palavra “carreira”.

“Carreira, pra mim, significa história. Eu sou constituída de história. E, pra mim é tudo neste momento, minha carreira”, diz a professora, no vídeo da campanha. Rosiane já havia sido destaque em 2013, como uma das dez vencedoras do Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita. A convite da Francisca, ela escreveu artigo, abordando os cenários pós-pandemia na área da educação. Versão condensada do texto foi publicada na edição 25, de novembro/dezembro, que traz uma série de análises sobre tendências. Aqui, a versão integral.


*******************************************************

Por muito tempo, tudo seguia um padrão, com datas estabelecidas para determinados eventos, regras definidas para o convívio em sociedade, e o mundo avançava de maneira natural, sem exigir adaptações ou mudanças. De repente, um vírus surge no outro lado do mundo – e, em pouco tempo, avança fronteiras e chega ao Brasil. A pandemia se instaurou no planeta, e surgiram desafios à humanidade. O isolamento foi a medida prioritária: manter o distanciamento e evitar aglomerações. O foco estava em preservar a vida, proteger-se da contaminação. Especialistas e autoridades buscavam soluções, como manter a economia, a educação, a segurança e a saúde.

Nada mais era normal, os hábitos de convívio social sofreram alterações, o aperto das mãos e o abraço não eram mais bem-vindos; o uso de máscaras e a higienização das mãos entraram nas rotinas e a proximidade com o outro tinha limites. Pouco se sabia do que podia acontecer. Diariamente, decretos eram enviados para diferentes setores e organizações, medidas eram tomadas imediatamente, com o propósito de conter a pandemia. Adaptações em todos os segmentos, e, claro, afetando a educação. Já não era mais possível professor e estudantes estarem no mesmo espaço.

As escolas entraram em quarentena, foi decretado o ensino remoto. Ensinar remotamente, eis o desafio. As aulas aconteceriam com os professores de um lado e os estudantes de outro. Por meio de recursos tecnológicos, salas virtuais, crianças e adolescentes recebiam seus materiais de estudo. Ainda houve aqueles que precisaram ir até a escola para receber esses materiais, devido à falta de acessibilidade por meio virtual. A mudança rompeu com toda a tradição escolar, desestabilizou os profissionais da educação, trouxe insegurança aos estudantes e às famílias.

Era preciso se reinventar, cada um em suas casas, para ensinar e aprender. A sala de estar dos professores virou sala de aula. A família, agora, convivia no mesmo espaço de trabalho do docente. E o mesmo sucedeu com os estudantes. Tais mudanças trouxeram vulnerabilidades e desequilíbrios emocionais que perturbaram os indivíduos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem neste período de incertezas e angústia que atravessava a Terra.

Foi o momento de viver o novo. Para alguns docentes, foram oportunidades de aperfeiçoar práticas de ensino, de desenvolver suas competências socioemocionais e buscar o autoconhecimento. No entanto, para outros, a consequência foi o desequilíbrio emocional, o desencorajamento e o adoecimento. Cada ser humano enfrenta os desafios da carreira de forma muito peculiar.

No anseio de enfrentar o momento pandêmico de maneira mais leve, houve a busca de alternativas, e uma delas foi utilizar os recursos tecnológicos em prol da autoformação e a formação do outro, além de oportunizar o contato com outras pessoas, mesmo virtual. Aproveitando esse movimento, um grupo de profissionais da educação de Joinville decidiu se reunir virtualmente para estudar temas voltados ao autoconhecimento. Conhecido como “Didatas”, o grupo já vinha realizando estudos havia uns quatro anos, sempre com intenções pedagógicas. Agora, diante desse cenário de pandemia, com forte instabilidade emocional, preferiu manter a rede de apoio e, principalmente, ampliar seus conhecimentos em relação a temas voltados para a formação integral do ser humano e o desenvolvimento das competências socioemocionais, temas tão fundamentais na educação do indivíduo quanto qualquer outro conhecimento curricular.

O tempo de pandemia trouxe modificações na sociedade, que não permitiram escolhas, mas definiram um novo formato de viver. Essas mudanças impactam as pessoas, desestabilizam as emoções e geram sentimentos que, quando não bem direcionados, podem prejudicar a performance em sociedade. Portanto, uma rede de apoio é sempre bem-vinda nas relações, e neste momento pandêmico é fundamental.

“Sempre fui uma pessoa que necessitou de rotinas, de ter o controle da maioria das minhas ações, porém, com a pandemia, precisei viver o incerto, planejar e replanejar. Uma coisa eu aprendi:  viver o ‘hoje’” – depoimento de uma das integrantes do grupo “Didatas”. O grupo tem seus encontros quinzenais e vem sendo um refúgio para os momentos de tempestade, assim como palco de celebração para os dias de conquistas.

Essa crise de saúde mundial marcará a história da geração atual. A forma como essas vivências estão sendo registradas está totalmente vinculada às habilidades socioemocionais de cada ser humano, portanto, ter consciência das escolhas e ações que permeiam esse momento é fundamental para ter marcas positivas. São momentos que não há como evitar, porém, com conhecimento e apoio é possível trilhar construindo uma carreira repleta de experiências.

O novo gera mudanças, altera padrões, modifica crenças e condutas e traz incertezas. Diante dessas alterações, surge o questionamento:  como está a educação em meio a pandemia? A pergunta leva à reflexão na busca pela resposta, e gera inquietude. O ensino vem acontecendo, e com foco diferenciado; assim como os profissionais passam pelo desafio de ensinar sob as influências da pandemia, os estudantes também participam com mesma intensidade do desafio de aprender. O cenário atual é desafiador para quem ensina, exigindo habilidades que vão além de transmitir o saber curricular. Requer sensibilidade, estratégias variadas, flexibilidade.

Na região de Joinville, nas escolas da rede municipal, os estudantes do ensino fundamental já retornaram ao ensino totalmente presencial. Será que voltamos ao “normal”? Crianças e adolescentes voltam às salas de aula ainda fazendo uso das máscaras, precisando manter um padrão de distanciamento e não podendo compartilhar pertences. Algumas delas estiveram em casa por pouco mais de um ano e, durante este período, não tiveram acesso ao material de estudo. Casos como esse exigem acolhimento dobrado: a escola precisa recuperar a aprendizagem dos conteúdos que o estudante não teve acesso e principalmente cuidar do socioemocional para que a criança ou adolescente mantenha o vínculo com a escola e se sinta pertencente ao ambiente.

Para muitas crianças, a escola é um local de referência e aconchego. Uma cena assistida quando as crianças retornaram às aulas foi relatada por uma professora: “Vi um garoto de uns 9 anos que abraçava os pilares da escola e dizia: ‘Que saudades que eu estava de você, escola’, foi uma cena comovente”. Neste depoimento, fica claro o quanto as crianças se sentem pertencentes à escola, como têm relação afetiva com o espaço, e isso aponta que todo esse sentimento é desenvolvido pelo trabalho dos profissionais.

Aprendizagem, em tempos de pandemia, vai além de conceitos e fórmulas: são saberes voltados à formação integral e a interação com o entorno. A busca por essa educação vem de séculos passados, mas talvez precise viver o inesperado para atuar o planejado.

A pandemia será vencida, e cada indivíduo levará consigo as aprendizagens construídas. Para alguns, serão apenas fatos, para outros, atitudes, e ainda haverá aqueles que sofreram transformações e transformaram. Em qual grupo iremos estar? Como vivemos e enfrentamos tal crise?  Que as lições deste tempo sirvam de andaime para a evolução pessoal e da humanidade. Lições que são muito peculiares, relacionadas às permissões que cada um concede ao longo do percurso.

Educação em tempos de pandemia foi além de saber determinado conhecimento, está em saber viver diante do inesperado. Atingiu além daqueles que em salas de aula esperavam o conteúdo lecionado, envolveu a sociedade, desenvolveu a sensibilidade, despertou a coragem. Para continuar a caminhada, precisamos buscar uma luz para prosseguir a jornada da vida. E o mais belo está em como cada pessoa, grupo, entidade, lugar vem trazendo essa tocha, ou seja, a esperança de que, mesmo diante do caos, é possível aprender. Os tempos passam e a vida continua proporcionando as melhores aprendizagens.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *