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A história por trás das canções do novo disco de Prika Lourenço

Amcle Lima

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A ARTISTA

Prika Lourenço é uma cantautora catarinense, natural de Tubarão e moradora de Joinville. Suas primeiras canções foram marcadas pelas influências da black music (soul, jazz, R&B) misturadas com o tempero da MPB. Em seu segundo disco, “Vento Norte”, lançado em fevereiro deste ano, gravado e produzido em Joinville, apresenta sete músicas compostas a partir de uma viagem solitária de bicicleta em que percorreu todo o litoral do Rio Grande do Sul até chegar à Barra do Chuí – uma viagem realizada em 2017, como estratégia de divulgação do seu primeiro álbum: “Longe – Para Onde o Tempo Quiser Ir”.

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A primeira parte da história das canções do disco “Vento Norte” de Prika Lourenço você lê na edição número 17 da Revista Francisca.

 

Capítulo 2 – O desvio, o encontro: um porto na Cidade das Bicicletas

– Olá!

Prika olhava para o relógio da rodoviária quando recebeu o cumprimento. Queria registrar em uma foto o momento em que chegava a Joinville: eram doze horas e cinquenta minutos. A partir daquele “olá”, soube, na verdade, que havia registrado o “exato momento” em que ela chegou, naquele 21 de outubro de 2017. A voz que a cumprimentava era de Ângela. Amizade iniciada pela internet, era a primeira vez que se encontravam pessoalmente: uma estrada de tijolos digitais a havia trazido até a Cidade das Bicicletas. Haveria melhor lugar para uma ciclista? Ela ainda não sabia que a cidade seria seu porto de descanso do projeto “Música, Pedal e Histórias”, que comporia, em função desse encontro, as quatro canções finais para o disco “Vento Norte”, e que o álbum seria finalmente produzido e lançado em Joinville em fevereiro de 2021, selando a nova parceria. Mas tinha uma certeza: vivia algo especial que a faria lembrar daquele instante para sempre.

– Oi… – respondeu.

No projeto “Música, Pedal e Histórias” o objetivo é percorrer seis mil quilômetros de bicicleta da Barra do Chuí no Rio Grande do Sul até Natal, no Rio Grande do Norte. A etapa do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina estava cumprida. As viagens de bicicleta fizeram Prika perceber uma oportunidade de trabalho: traçar novas rotas para o cicloturismo, que demonstrava crescimento. Por isso, na metade de 2017, decidiu se dedicar a esse empreendimento e, por meio de editais de incentivo estatal, traçar uma rota de cicloturismo no Sul do Estado, de Laguna a Tubarão. No miolo de tudo, música, composição, e sua receita para deixar a ansiedade para trás: boa alimentação e sono regular (estava se esforçando), exercícios físicos (a bicicleta havia se tornado parte dela) e amor.

Foi amor que a levou até Joinville: um ninho no caminho. Depois do encontro, de volta a Tubarão, recebe de presente uma canção. Ângela Finardi, diretora e atriz de teatro, redescobre-se compositora e escreve uma música para o exato instante em que se encontraram: “12:50, Tempo de Amar, a Soma dá 8, Nosso Infinito Particular”. Prika retribui o carinho e compõe “Espelhos”. Mostra ao pai o esboço da canção. Brincando, ele comenta: “Está bonita, mas tens um problema, começaste pelo refrão, quero ver tu terminar agora”. Ela riu e ainda ri dessa brincadeira, mas a canção ficou assim mesmo: um refrão, repetindo-se com variações. E era isso que ela queria da vida agora: a melhor parte, o refrão, repetindo-se, para sempre. Logo que se conheceram, ganhou de Ângela um livro escrito por Bartolomeu Campos de Queirós que diz: “Peixe e pássaro vivem pouco, mas vivem muito num dia só”. Uma celebração da intensidade do tempo presente e dos encontros. O trecho se tornou a epígrafe do songbook do disco “Vento Norte”.

A parceria com Finardi, a quem deu o codinome “olhos espelhos”, a fez crescer, voar e se ver no olhar que recebia dela: “Traz mais de você, mas também revela a mim”. Na Cidade das Bicicletas, ela aprendeu a ser atriz, compor para teatro, vencer a timidez e olhar para frente quando toca em público – um desejo paterno. O pai foi músico nos anos 1970 em Porto Alegre, vivia a Jovem Guarda e tocava o iê-iê-iê: calça boca de sino, sapato bico fino e sorriso largo no rosto – pacote 1970 completo. Com ele, Prika aprendeu a tocar violão quando tinha de 10 para 11 anos. O pai estava ensinando um amigo a tocar violão. Ela ficava olhando. De vez em quando, eles paravam para conversar, tomar uma cerveja. Ela então pegava o violão do amigo, que era um instrumento menor, e repetia os acordes que havia aprendido. Ao cabo de três semanas, estava tocando, mas o aluno de fato ainda não. O amigo do pai, embaraçado com a situação, deu o violão para Prika. Foi o primeiro dela. Aos 11, devorava revistinhas de cifras, mas ainda olhava para o braço do violão. O pai a fazia ensaiar num quarto escuro, para que não olhasse para a mão ao fazer os acordes.

– Você não pode olhar para o braço do instrumento, você tem que olhar para as pessoas – dizia ele.

Mas não era só isso. A timidez também a fazia desviar o olhar da audiência. Foram Ângela e o teatro que a ensinaram a olhar para frente, para a plateia, como pedia o pai. Prika, por sua vez, ensinou a amiga a pedalar longas distâncias e agora tem uma acompanhante nas jornadas. Dois espelhos, um em frente ao outro, revelam um infinito se refletindo eternamente. E assim as canções foram fruindo. Prika escreve “Vento Norte”, também para Ângela. Quando iniciou o projeto “Música, Pedal e Histórias”, decidiu começar de Torres para Chuí – queria ir a favor do “Vento Norte” e facilitar a jornada. Agora, em processo de mudança de Tubarão, no Sul, para Joinville, no Nordeste de Santa Catarina, as asas voavam “de encontro ao Vento Norte”. É que para pedalar o vento é bom a favor; para voar, planar, melhor que venha de encontro e entre por debaixo das asas.

Ela agora voava e encontrava as canções no ar. A ideia de lançar apenas novos singles foi abrindo espaço para a produção de um disco inteiro. Já contava cinco canções. A aprovação em um edital de financiamento cultural do governo de Santa Catarina selaria o nascimento do álbum “Vento Norte”. Joinville lhe traria mais encontros, contribuindo na empreitada: o contrabaixista e arranjador argentino Marcos Archetti e o baterista e produtor musical Rafael Vieira se tornariam peças fundamentais na finalização de seu segundo disco. Mas ela ainda precisava de mais composições, para completar as sete que inscreveu no projeto. Essas, entretanto, teriam que ser buscadas nos Campos Neutrais, num caminho que a levou de volta à Barra do Chuí.

 

Capítulo 3 – Campos Neutrais

– Prika! Eu preciso finalizar os arranjos, eu preciso das músicas que faltam! – Era o arranjador do disco “Vento Norte”, Marcos Archetti, brincando sério, pelo telefone, na virada para 2020.

– Fica tranquilo, logo chegam – responde ela, sem ter escrito ainda as duas últimas canções.

O projeto do disco havia sido selecionado no Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura, em novembro de 2019 e tinha seis meses para conclusão. A programação era compor as duas músicas finais até fevereiro, finalizar os arranjos e entrar no estúdio em março. Mas as músicas não vinham. Não por bloqueio criativo, mas sim porque o disco era uma história muito específica. Tinha íntima ligação com a jornada do “Música, Pedal e Histórias”, mas também era fruto do encontro com Ângela. Foi então que ela percebeu que os últimos capítulos da história ainda não estavam escritos e precisavam ser traçados a quatro mãos – ou pedalados a quatro pés. Lançou o convite:

– Ângela, bora conhecer o deserto?

– Vambora – respondeu a companheira de aventura.

Havia prometido levar os “olhos espelhos” para conhecer os lugares pelos quais havia passado, as pessoas que havia encontrado. E, como a parceira demonstrava estar pronta a cada treino de bicicleta, entendeu que chegara a hora. Era janeiro de 2020 e partiram de carro, as bikes atreladas, direto para a cidade gaúcha de Rio Grande: doze horas de viagem. Hospedaram-se na casa de um dos anfitriões de Prika na primeira incursão, Ricardo Barreto. Deixariam o carro ali e ele as encontraria com o veículo em Chuí, para o retorno. Sairiam dos Molhes da Barra, na Praia do Cassino, para enfrentar 235 quilômetros pedalando até a Barra do Chuí – a parte mais desafiadora enfrentada por Prika no “Música, Pedal e Histórias” em 2017. Não sabiam elas, ainda, que no  trajeto encontrariam com Maria, Jesus e na chegada com um pajarito (passarinho, em castelhano).

O trecho que cruzariam de bicicleta é uma enorme praia contínua, boa parte, mais de 200 quilômetros, totalmente deserta, com dunas e longa faixa de areia – em muitos locais, a distância da água até o início da vegetação rasteira é de mais de 1 quilômetro. A extensão cobre os municípios de Rio Grande, Santa Vitória do Palmar e Chuí. Recebe vários nomes ao longo do caminho, em cada cidade: praia do Cassino, do Hermenegildo e praia da Barra do Chuí. Outras alcunhas se referem à geografia e à história. É também chamada Deserto do Albardão (palavra que significa grande faixa de terra) e “Campos Neutrais”. Este último epíteto seria também a nominação da sexta música do disco “Vento Norte”. A origem histórica dos “Campos Neutrais”, os numerosos naufrágios ocorridos naquela orla e a imensidão desértica permeariam as conversas de Prika e Ângela na viagem e seriam inspiração. A origem do nome da região tem relação com o Tratado de Santo Ildefonso, de 1777, um dos acordos que pretendiam estabelecer regras para os limites dos domínios de Portugal e Espanha na América no período colonial.

A convenção de 1777 regulamentou uma particularidade no Sul do continente americano: estabeleceu uma porção de terra, entre as fronteiras dos reinos, que não poderia ser colonizada por nenhum deles. O objetivo era evitar confrontos, mas também inibir o comércio entre os habitantes locais, tido como contrabando e ilegal pelos reinados, que monopolizavam o comércio com as colônias. A esse espaço entre as fronteiras, de proibida habitação, deu-se o nome de “Campos Neutrais” e correspondeu aos territórios dos que são hoje os últimos dois municípios litorâneos riograndenses, Santa Vitória do Palmar e Chuí. Geograficamente, do início dos banhados do Taim até a barra do rio Chuí. Boa a parte do desafio que Ângela e Prika confrontariam pedalando.

O Tratado de Santo Ildefonso gerou, na época, uma terra de ninguém. A região, também apelidada de “Cemitério dos Navegantes”, segue bastante deserta até hoje e ainda provoca discussões sobre a quantidade de naufrágios ocorridos. Boa parte deles se explica por fatores climáticos, como tempestades de rápida formação, provável causa do encalhe do navio Altair em 1976, e geográficos: a costa plana confundiria os viajantes marítimos, que se aproximavam demasiadamente da praia durante a noite, por não perceberem o fim das águas. Entretanto, esses numerosos desastres marítimos abriram espaço para lendas de pirataria. Acredita-se que, aproveitando-se da situação desértica e da geografia que confundia os navegadores, grupos malintencionados acendiam fogueiras noturnas na praia, cuja luz fazia as tripulações acreditarem se tratar de outras embarcações ao longe ou de estrelas. As naus se aproximavam assim, perigosamente, da orla, encalhavam e eram saqueadas.

Um dos casos mais famosos é o do naufrágio do navio inglês Prince of Wales, em 1861, que causou incidente diplomático entre Brasil e Inglaterra, devido às evidências de saque da embarcação e suspeitas de assassinato da tripulação. São inúmeros os naufrágios nos Campos Neutrais desde o século 16. Até a construção dos faróis na região, no século 20, a Marinha brasileira estimou média de um por ano. Imaginar que, naquele imenso deserto que atravessariam, muitos náufragos vagaram sem rumo, na esperança de avistar navios salvadores, mas que alguns morreram e hoje jazem soterrados sobre as dunas, incitava a mente da compositora e da diretora de teatro. Toda essa paisagem e histórias foram mola propulsora da canção “Campos Neutrais”.

Partiram para aventura no dia 5 de janeiro de 2020, às 7h40, saindo de bicicleta da casa do anfitrião e indo em direção ao ponto de partida na praia, nos molhes da barra do Cassino. Nos alforjes, paçocas, amendoim salgado, barras de proteína e provisão de carboidrato concentrado. Levaram também um miojo, uma lata de sardinha e queijo ralado, para um jantar no Farol do Albardão, assim como um cappuccino solúvel, para o café da manhã.

– Porque ninguém é de ferro! – disse Prika sobre as provisões.

Fazia um dia de sol encantador, com pequenas nuvens brancas desenhando abstratos no fundo azul, acima do clássico mar marrom gaúcho. A paisagem parecia refletir os sorrisos delas. Uma pausa para fotos nos destroços do navio Altair. Às 11 da manhã já tinham percorrido 40 quilômetros. Para qualquer lugar que olhassem só avistavam areia, céu, mar e vegetação rasteira: o deserto já se fazia pleno. O deslumbre nos olhos de Ângela, a emoção das lembranças nos de Prika. Os animais mortos jaziam pela praia. Deram-se o trabalho de contar: 30 cadáveres de seres marinhos avistados até o fim da viagem – 25 tartarugas, uma toninha, dois golfinhos e duas baleias. Mesmo no deserto, a dura marca da mão humana, da pesca predatória e da poluição dos oceanos. O sol ardia: controlavam a água e a compositora já sentia o peso do violão que levava na garupa – a ideia era fazer algumas fotos para o disco e relembrar a aventura de 2017, na qual levou o instrumento.

Exaustas, venceram o primeiro dia com tranquilidade, apesar do enorme esforço físico. No horizontem o pôr do sol era uma pintura, um ponto de fogo afundando na areia, tingindo o céu de tons laranjas ao seu redor. De recompensa, pelos 125 quilômetros vencidos desde a partida, alojamento cedido pelos marinheiros no Farol do Albardão. Não foi possível preparar o delicioso jantar imaginado de miojo, sardinha e queijo ralado, levados nos alforjes, pois não havia gás na casa em que ficaram. Apesar disso, a emoção tomava conta de Prika e às vezes fluía pelos olhos. Estava impressionada com o desempenho de Ângela até o Albardão. O primeiro farol foi construído naquele local em 1909. A estrutura original de aço, 38 metros de altura, corroída pela maresia, foi substituída em 1948 pela atual torre de concreto de 45 metros. Por dentro dela, 239 degraus serpenteiam até a grande lanterna. Ao redor, quatro casas para acomodação dos vigilantes. No fim dos anos 1940, os caminhões trouxeram os materiais para a construção do novo farol pela areia da praia. Vinham perto da água, onde a areia é mais firme, mas muitas vezes eram tomados por ondas surpresa ou mau tempo que os faziam encalhar, atrasando a obra.

No Farol do Albardão, dois militares da Marinha passam 90 dias totalmente isolados e revezam com outros dois, que os substituem pelo mesmo período. Ângela e Prika estavam cheias de dores, mas felizes e tranquilas, a viagem corria bem e a previsão era de tempo firme para o segundo dia – isso é o que diziam todos os aplicativos que usam para obter a informação climática, assim como foi confirmado pelos marinheiros, com base nos dados do sistema da Marinha. Entretanto, no dia seguinte, os “Campos Neutrais” fariam valer sua fama. Pela manhã, conseguiram água quente para o cappuccino. Preferiram não subir o farol e guardar energias para a viagem. Sábia decisão. Partiram do farol às 9h23. O céu azul as fazia imaginar que chegariam as 16 horas na Barra do Chuí. Na saída, uma foto tirada pelo sargento Chagas, que estimou a viagem em cinco horas. Depois que uma reportagem sobre o Farol foi veiculada em uma grande rede de televisão, em 2019, aumentou consideravelmente o número de pessoas que pedem abrigo no lugar.

– Não sei por que vocês se metem nisso. O que vocês acham de interessante em vir assim para o deserto? – perguntou o sargento, brincando, e um pouco incomodado com esse aumento de peregrinos influenciados pela matéria da TV (o que não era o caso delas, que vinham atrás de canções).

As duas riram com ele e partiram. Logo no começo da jornada, o vento, previsto para virar às 2 da tarde, muda para Oeste, dificultando as pedaladas. Levam uma hora e meia para fazer 19 quilômetros, dos 100 que precisam para finalizar. Param para almoçar o que teria sido o jantar: Prika se serve da sardinha enlatada com o auxílio de uma concha encontrada na areia. Ângela preferiu o miojo cru. O céu, ainda azul, o sol escaldante do deserto nas cabeças e a imensidão como companhia. Seguem com algumas paradas, em que se molham na praia para baixar a temperatura do corpo e tomar água. O sol enlouquecia de calor. Às 4 da tarde, o astro se esconde e o céu se tinge de cinza. O que poderia ser alívio logo se transforma em temor.

Formava-se uma tempestade cinematográfica, totalmente fora do previsto. Raios elétricos assustadores cortavam o horizonte e traziam perigo real: muitos acidentes já ocorreram no litoral brasileiro, causados por raios que atingem o mar, matando banhistas desavisados. Em seguida, uma chuva as deixa atônitas no meio do inóspito, sem abrigo e sem local pra se proteger do vento forte, que levantava a areia e trazia rajadas violentas de água. Cansadas, pelo segundo dia de pedaladas intensas, não sabiam o que fazer: deitavam-se no chão ou procuravam se aproximar dos arbustos no fim das dunas. Ângela tinha medo da vegetação atrair os raios e, empurrando a bicicleta, tinha dificuldade para carregar a si mesma em meio à tempestade. Prika também e ainda levava o peso dos alforjes e do violão.

– Vamos, não dá para parar – dizia a cantora.

Depois de tanto sol na cabeça, em meio à chuva grossa e medo do pior, parecem delirar no deserto à beira-mar. Prika avista dois vultos humanos saindo da praia. Seria miragem? Um vulto era mais claro e o outro, mais escuro. Incrédulas e assustadas, cruzavam eternamente em direção a eles. O vulto mais claro era uma mulher: tinha cabelos pretos compridos. O outro era um homem, trajado de vermelho escuro, tinha cabelos loiros. Agora mais perto, enxergavam, apesar da areia voando e da água sobre os olhos, que atrapalhavam a visão. Um milagre? A dupla, aparecida na praia, informa que à frente existe abrigo. O trajeto até o local, empurrando as bikes sob o céu desabando, foi outra eternidade que no total durou pouco mais de 20 minutos, graças ao salvamento. Na casa, descobrem: ela se chama Maria e é artista plástica. Ele é oceanógrafo e se chama Rhiel, nome que soou angelical para elas. O casal estava hospedado na casa de um amigo biólogo que ficava pouco depois das dunas.

– Existem algumas casas além das areias, são poucas, mas tem – informou Rhiel, oferecendo um chimarrão quente, prontamente aceito.

Incrédulas, rindo e aliviadas, secam os mantimentos e o violão, enquanto desabafam a surpresa com os salvadores. Se elas houvessem cruzado com o casal saindo da praia, sob o sol, em pleno deserto, já seria incrível. Cruzar com eles em meio à tempestade imprevista é algo que a até hoje as deixa agradecidas, tamanha a inexplicável providência. Logo depois a chuva para. Elas se despedem e seguem viagem. Precisavam ir, já eram 5 da tarde, o tempo corria. A região dos Campos Neutrais, há 400 mil anos, era completamente coberta de água, no período pré-histórico conhecido como Pleistoceno. As ondas e correntes marítimas foram depositando barreiras arenosas, formando uma faixa de terra e separando parte das águas que ficaram no continente, formando assim as enormes Lagoas Mirim e Mangueira. Diversas formações ocorreram no local até que, há quatro mil anos, o canal das lagoas com o mar se fechou por completo. Atualmente, a erosão e as ondas trazem a memória desse período submerso para a orla, carregando lembranças do antigo canal de ligação e jogando grande número de conchas e fósseis milenares na beira da praia. Essa região é o terror dos aventureiros do local, uma espécie de teste final. É chamada “Concheiros”. Pedalar sobre as conchas é praticamente impossível. Rhiel, o oceanógrafo que lhes tirou da praia na tempestade, informou que os concheiros ocupavam uma área de poucos quilômetros antigamente, mas seu alcance vem aumentado de tamanho ao longo do tempo, pelas mutações geológicas.

– Já não se sabe ao certo a sua amplitude, mas já ocupa muitos quilômetros – disse Rhiel.

Foram obrigadas a descer das bicicletas e caminhar pelas conchas, sabendo que seria uma longa caminhada: de onde a tempestade as pegou até o local mais habitado para um descanso, na praia do Hermenegildo, seriam quase 50 quilômetros. O trajeto teve que ser feito parte pedalando, mas o maior pedaço de todo o trecho foi vencido andando e empurrando as bicicletas. Às 19h30, dez horas após saírem do Farol do Albardão, o sol começa a se pôr e mais um espetáculo de prêmio: uma pequena brasa, redonda e avermelhada, afundando no chão, compondo com o céu uma moldura. A noite traz a beleza do céu estrelado no deserto, sem outra incidência de luz artificial. Mas também traz novos desafios: perceberam que, em algumas partes do trajeto, a areia formava altas construções e abria precipícios perto do mar, que poderiam causar um tombo de grande estrago. Seguem empurrando as bicicletas noite adentro, a bateria da lanterna acabando. Às 22h20, param para descansar.

Tiram os sapatos para aliviar os pés doloridos. Uma pitada de desespero começa a surgir: ainda faltavam pelo menos 10 quilômetros até o balneário do Hermenegildo e teriam que ser feitos a pé, devido às conchas e à escuridão. Se até então as risadas vinham aliviando a tensão, chegara a vez das lágrimas. Prika chora preocupada e Ângela, impactada pela emoção da ciclista experiente, dá-se conta do real perigo em que estavam. Decidem dormir na areia, pois estavam muito cansadas. Revezariam três horas de sono para uma, enquanto a outra faria vigília. Mas o poder dos encontros mais uma vez traz salvação. Uma caminhonete vinha pela praia. Era um casal de pescadores voltando para casa, que ficava nas proximidades da Lagoa da Mangueira.

Mais uma vez incrédulas, pedem ajuda e o casal de pescadores estaciona para socorrê-las. Eles colocam as bicicletas no veículo e levam as aventureiras até a proximidades da praia do Hermenegildo, numa carona de sete quilômetros. Dali pedalam mais três quilômetros até encontrar uma milagrosa pousada aberta, como Terra Prometida. E surpresa: após a tempestade e a caminhada no deserto, quem lhes recebe é Jesus, o dono do estabelecimento “Moradas do Jaú”. As duas aconchegadas, felizes pelo lençol branco na cama em vez de conchas na praia, Prika encontra forças para preparar o miojo que restou. Deliciam-se com o tão sonhado jantar. No dia seguinte, o restante do trajeto, comparado a tudo que passaram, foi apenas um desfile na praia cheia de banhistas até a linha de chegada da Barra do Chuí, onde o “bom dia” se transforma em “hola que tal”, pela vizinhança com o Uruguai. Lá, completaram os 235 quilômetros de aventura. No local, além de Ricardo Barreto, o anfitrião de Rio Grande que fora de carro ao encontro delas, as esperava um passarinho de cabelos brancos, guardião de histórias…

 

Capítulo 4 – El Pajarito

Após a aventura no deserto, hospedaram-se na pousada “El Faro del Pajarito”, a 30 metros do Farol da Barra do Chuí – os faróis, sempre guiando. Situada na primeira rua do Brasil, para quem vem do Sul pela costa, a hospedagem é administrada pelo senhor Alfredo Rodrigues Clavero.

– Meu apelido é “El Pajarito” – diz ele, ao se apresentar, para emendar uma citação do poeta gaúcho Mário Quintana – Eles passarão, eu passarinho… – acompanhada de uma gargalhada.

Nascido em Chuy, na margem uruguaia do arroio, Pajarito é um simpático senhor de cabelos brancos, filho de uruguaios e cujos bisavós vieram das Ilhas Canárias, arquipélago espanhol na costa noroeste da África. Recebeu o apodo, apelido em castelhano, aos 4 anos de idade, quando recém tinha migrado com a família para o Brasil. A origem é uma propaganda que circulava nas rádios locais, nos anos 1950. O comercial dizia assim: “Con que pintas Luiz Carlitos, con pintura ‘Pajarito’”. Como o pequeno Alfredo vivia agitado, tinha físico miúdo e só falava espanhol, foi feita a associação e o rebatizaram “El Pajarito”. Quando Prika e Ângela o conheceram, em janeiro de 2020, tinha 65 anos.

-–Sou o morador mais antigo deste lugar, que foi um dia ‘Campos Neutrais’ – certificou ele, completando com indignação sobre a disputa territorial dos nativos com portugueses e espanhóis. – Antes, aqui moravam os indígenas, verdadeiros donos que foram exterminados, mas não conseguiram apagar suas marcas.

Professor de Educação Física e psicólogo aposentado, o anfitrião, El Pajarito, levou Prika a pensar que seria talvez um professor de História, pelo seu conhecimento. “Tenho mania de poeta e historiador, mas não sou nada”, esclareceu em outro momento, divertido. Separado, pai de dois filhos adultos que não vivem mais com ele, Wiliam e Víctor, Pajarito mora sozinho na pousada, no ermo Sul do Brasil.

– Meu filho Wiliam também é artista, tem livros fotográficos muito bonitos, do deserto do Atacama e da Patagônia – declarou, orgulhoso.

Os hóspedes são combustível para o farol que ilumina os dias do senhor Alfredo, ele gosta de conversar e ficou encantado com o timbre de voz da compositora. Empolgado, no dia seguinte, na despedida de Prika e Ângela, declamou um poema de sua autoria, “Náufrago de mim mesmo”:

 

Naveguei sem destino por um oceano

Maior que o meu pequeno universo

Me acolheu a última estrela para iluminar meus temores

Prisioneiro das marés, fiz do sol bálsamo para minhas dores

Ao chegar o amanhecer, acordei com as gaivotas alçando voos

Mulher, menina… ave

Não percebi que eras andorinha em fuga

Talvez, te feri com meu ímpeto desgovernado?

A tarde se fez “tarde”, cobrindo-se de sombras, frases fragmentadas

Nas dunas molhadas escrevemos, celebrando o amor pleno

Teu olhar permissivo, fazia-me sentir teu dono

O que importa o que os outros “gentios” pensassem…

Já sei que sou apaixonado e louco!

Sonhei com teus mais íntimos desejos amarrados aos meus

Naveguei sem leme e sem bússola, para que o vento levasse minhas penas

Vi luas e mais luas…

Mas, nos teus olhos habitava uma mentira ansiosa, com vontade de ser verdade

Preferi morrer dentro de mim, todos os dias, um pouco desse sentimento acorrentado

Restando apenas sofridas lembranças, de um barco mal cuidado

 

Silêncio. Por um instante, Prika e Ângela ainda ouviam atentas e encantadas. Um bumbo leguero soando em algum lugar e a canção “Campos Neutrais” sendo escrita em algum outro. Na volta da viagem, de carro, vieram visitando os outros hóspedes da compositora na primeira incursão. Alegrias, saudades, abraços: era começo de 2020 e ainda se podia abraçar. Em casa, em Joinville, ao desfazer as malas, ao guardar as roupas, ao retomar a rotina, pedaços das duas últimas canções de “Vento Norte” iam aparecendo. Primeiro surge “Campos Neutrais”, cheia de naufrágios e uma pitada de El Pajarito: “quem resolveu ficar, conta histórias tão antigas”. Por último, numa tarde qualquer, num abraço no sofá, na celebração da parceria com Ângela, conversas sobre a aventura que viveram, enlaçadas em calma e relembrando a viagem a dramaturga adormece. Prika, vendo-a dormir, puxa o violão e ouve um sussurro interno: a doce melodia de “Ventos e Conchas” nascia. “Gosto tanto de te ver adormecer, calmaria e sonho bom, melodias pra zelar teu sono, me acalmam também”, os versos iam surgindo e soando como incenso que não queima, apenas plana. A paz e a certeza de que as músicas estavam mesmo no deserto, mas também de que a viagem sempre foi para dentro dos “olhos espelhos”. “Vento Norte”, estava completo e já podia ser gravado.

 

Epílogo

Na verdade mesmo, o disco “Vento Norte” começou a ser escrito bem antes, quando Prika tinha de 2 para 3 anos de idade e sua mãe, enfermeira em Tubarão, a ensinou a colocar os LPs no toca-discos. A mãe queria amenizar sua própria falta e a do pai, quando iam para o trabalho e ela ficava em casa somente com a avó. A partir daquele dia Prika, ficava em casa também com Tina Turner, Abba e outros sucessos dos anos 1970. Dias mais alegres ao som de “I Love to Love” e “Dancing Queen”. Foi escrito também nas serestas as quintas-feiras na rua São Geraldo, bar do Sapo, onde o pai participava tocando. Foi composto no Coral da Glória e no que aprendeu de música com cada primo: Chico, Caetano, rock e surf music.

Foi traçado nos muitos anos em que tocou em barzinhos. Foi iniciado no primeiro disco “Longe”, com a canção “O Tempo que não foi Perdido” – a qual ela regravaria em “Vento Norte” mudando um tom e apenas uma letra para não esquecer que o tempo transforma as coisas e que é necessário encerrar ciclos. Por isso, a música encerra o álbum. E claro foi forjado nas dores causadas pela ansiedade, pelo cansaço das jornadas de bicicleta no “Música, Pedal e Histórias” e pelos encontros. O encontro com Ângela e consigo mesma nos “olhos espelhos”. E dos encontros que fez na Cidade das Bicicletas.

Por isso, o disco “Vento Norte” é o encontro com os arranjos de Marcos Archetti, com a bateria e produção musical de Rafael Vieira, o piano de Marisa Toledo, a flauta de Cláudio Moraes, violoncelo de Isabel Sprogis, o acordeon de Vinicius José, a guitarra argentina de Leonel Olivero e as vozes de Bruna Miranda, Isadora Finardi e de Ângela Finardi. Houve uma pandemia, que dificultou a gravação e fez que parte do processo fosse feito de encontros virtuais. Mas em fevereiro de 2021 o disco chegou para todos, no tempo certo, o tempo do voo, conforme as condições do vento.

E agora, aqui (https://www.prika.com.br/), todas as canções do disco “Vento Norte”.

 

Para saber mais

Confira os registros da aventura de Prika e Ângela no Facebook (https://www.facebook.com/media/set/?set=a.2677627789011534&type=3).

Conheça a canção “12:50” (https://www.youtube.com/watch?v=VAjPEzOPuPQ) composta por Ângela Finardi.

Conheça também a pousada “El Faro del Pajarito” (https://www.facebook.com/elfarodelpajarito/).

Saiba mais sobre a geografia (https://repositorio.furg.br/handle/1/3970) e a história dos “Campos Neutrais” (https://brapci.inf.br/index.php/article/view/0000009176/c31726c36f3742a21a785090d0c9923a), o caso Prince of Wales (https://lume.ufrgs.br/handle/10183/28961) e a construção do Farol do Albardão (https://www.marinha.mil.br/ssn-5/node/48).

 

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