Aaplaj traz a exposição “Arte em Processo” para as redes sociais

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No dia 9 de março, a exposição “Arte em Processo” foi inaugurada com algumas expectativas: homenagear Joinville pelos 170 anos de fundação, ser um marco de retomada para a classe dos trabalhadores da arte, extremamente afetados pela pandemia, e mostrar um pouco do processo criativo de cada expositor. Realizada pela Associação de Artistas Plásticos de Joinville (Aaplaj), a mostra esbarrou no pior momento, na cidade e no país, da crise sanitária causada pelo coronavírus, que completa um ano. “Depois de mais de um ano de espera, os artistas foram convidados a levar um pouco de sua produção de 2020 para a exposição, porém não contávamos com o agravamento da pandemia”, lamenta o artista visual Marc Engler. “Pensamos que seria importante e necessário mostrar nosso trabalho”, diz Regina Marcis, presidente da Aaplaj. Felizmente, o incêndio que ocorreu na sexta-feira, 19, na Cidadela Cultural Antarctica, não atingiu a sede da Aaplaj, nem a exposição.

O coletivo de artistas plásticos, fundado em 1983, conta com 50 associados, e 27 deles trouxeram trabalhos para “Arte em Processo”. Em função da elevação dos casos de covid-19, a solução encontrada foi realizar uma exposição mista: de forma virtual, nas redes sociais, e com visitação física restrita às terças e quintas-feiras à tarde, sob agendamento. “O teatro e a música se apresentam nas redes, a literatura e a poesia são declamadas no rádio e em diversas plataformas, mas as artes visuais não estavam presentes”, frisa Regina. “E já surtiu um bom efeito: nossa exposição está acontecendo nas redes, sendo explorada em lugares distantes e mesmo em nosso meio”, comemora a presidente da Aaplaj. Ela participa da mostra com “Sol Quadrado”, obra na qual explora essa forma geométrica, a cor amarela, papel Paraná, e que foi produzida no distanciamento social de 2020. “Todos nós passamos um ano vendo o sol quadrado”, brinca.

Marc Engler é o responsável pela expografia, a disposição onde cada obra é apresentada, e também está expondo. Ele diz que os cancelamentos de trabalhos provocados pela pandemia a princípio estagnaram seu processo criativo. “Mas, como toda adversidade representa uma possibilidade de evolução, logo comecei a produzir uma nova série”, revela. A série “Surto”, iniciada no ano de 2020 como um exercício de produção sobre páginas da revista Vogue Itália, tem o cubo como tema. Sua obra “Surto 25” traz técnicas mistas de tinta acrílica sobre tela, fotografia e recortes de revista. “Usei folhas da revista porque têm conexão com o meu trabalho, a Vogue induz muito o comportamento, principalmente das mulheres”, comenta Engler. Na sua percepção, o necessário distanciamento social prejudicou as artes visuais pela impossibilidade de exposição, mas aqueceu o mercado. “Difícil se manter isolado olhando para paredes brancas”, confabula.

Ambos, a presidente da associação e o artista, percebem necessidade de resistência pela arte e coletividade. “A arte é uma forma de conexão e consciência, quem pôde ter acesso a alguma forma de arte no período de isolamento teve a oportunidade de se sentir um pouco melhor, pois arte cura”, ressalta Marc. Regina Marcis diz que o reencontro do grupo em reuniões virtuais e os preparativos para a exposição “Arte em Processo” ressaltaram o valor do coletivo, das reuniões de estudos e troca de experiências. “Somos a maior e mais antiga associação de artistas visuais de Santa Catarina e temos orgulho e responsabilidade pela Aaplaj”, evidencia.

Microuniverso criativo

A exposição “Arte em Processo” reúne trabalhos realizados no ano de 2020 e o objetivo é apresentar o “microuniverso criativo” de cada artista. Junto a algumas obras, estão estudos, trabalhos inacabados, os cavaletes, os pincéis, as tintas, revistas, tesouras e materiais utilizados. Diante da obra “Surto 25”, alinham-se as caixas/cubos que motivam Marc Engler. Miriam Puerta trouxe o seu tear e algumas molduras. Solange Pratta expõe o material de pesquisa de suas colagens. Adilson Santos, os adesivos utilizados no quadro sem título. Silvana Pohl participa da mostra com a obra “Sinceridade”. “A transparência do que vejo para aquarelar serve de metáfora para o que pauta meu mundo de relacionamentos”, diz ela, sobre seu trabalho.

Junto de sua aquarela, a artista mostra o arranjo floral que serviu de inspiração. “O trabalho final e o processo demonstrado logo abaixo dele na exposição exemplificam bem a forma como costumo trabalhar no dia a dia: uma composição floral que me inspira, estudos de composição e de variação tonal monocromática para entender melhor onde posicionar luz e sombras, estudo de paleta cromática para o trabalho e, finalmente, o trabalho em escala maior”, explica Silvana. Ela diz que aproveitou a pausa na agenda provocada pela pandemia para estudar. “A partir do início da pandemia, eu me vi com a agenda mais livre para fazer o que mais gosto: aquarelar, estudar o tema, evoluir”, completa.

O conjunto, obra e processo criativo de cada expositor, forma pequenas instalações espalhadas pela galeria. Alguns trabalhos dão a impressão de ter sido recém deixados pelo artista que saiu para descansar ou se alimentar. São os casos de “Em Construção”, de Léia Caron, e “Devaneio”, de Katia Kohn Silva. Já “Onde as paralelas se encontram”, de Márcia Lepage, dá uma ideia do caos no processo de criação, assim como “Acordo” de Jan M.O.. O mesmo pode se dizer da obra sem título de Rosi Costah, na qual a cor vermelha dos tecidos e objetos, assim como a bolsa esgaçada e as roupas e calçados sobre a mesa, remetem às entranhas de um armário interno da artista. Os quadros de Asta dos Reis, que trabalha com uma técnica milenar de desenhos a carvão, demonstram o impacto da pandemia.

Ela participa da exposição com quatro trabalhos: “Trajetória do Invisível”, “Covid e o Sistema”, “Confinamento” e “N.S. das Graças, 12.1 Apocalipse”. “De forma subjetiva e conceitual, representei o início da pandemia, o sistema sendo invadido pelo vírus, o confinamento com as incertezas, a tensão e o medo e, por último, o apocalipse em formato de releitura da aparição de Nossa Senhora das Graças [na visão apocalíptica de São João na Bíblia, com as 12 estrelas]”, esclarece Asta. Denise Schlickmann, por sua vez, disse que, na impossibilidade de exercer seu trabalho de mentoria presencial para novos artistas, em função da covid-19, aproveitou o tempo para experimentos artísticos, apesar de apreensiva pela perda da renda. “Na falta dessa atividade, comecei a estudar e a me desafiar em novas facetas da arte”, afirma.

Os resultados dessas experiências de Denise em papel e pintura abstrata com tinta acrílica podem ser vistos em “Arte em processo”, na série de Abstratos I, II e III. “São estudos sem grande expectativa em sair uma grande obra, pesquisas e experiências com materiais guardados a tempos, adquiridos e deixados em segundo plano pela pintura em tela”, evidencia. Ela se diz orgulhosa do trabalho que revela seu atual estado de espírito otimista. “Vendo as obras apresentadas nesta exposição e a qualidade delas, entendo que a pandemia mexeu com a sensibilidade de todos”, diz a pintora. “Os trabalhos estão maravilhosos, de uma qualidade ímpar, ouso avaliar que esta é uma das mostras mais lindas que a Aaplaj organizou”, finaliza.

Um motivo especial

Dona Dirce Barbi da Silva, como todos, teve um ano de 2020 bastante diferente. Acostumada a passeios com o neto, o fotógrafo Gabriel Silva, ficou impedida de ir à igreja, ver os amigos, os parentes, ex-vizinhos, e não foi nem mesmo à casa da ex-nora, ex-esposa de seu filho falecido e mãe de Gabriel, com quem ainda tinha uma relação próxima. Durante a pandemia, só teve contato com a família por chamadas de vídeo, realizadas a partir do lar de idosos em que vivia. Houve, entretanto, uma situação especial. “Quando fui convidado para fazer a capa da 11ª edição da Revista Francisca, tema era ‘as restrições de visitas para idosos’, e de imediato pensei na minha vó”, revela Silva.

Ele conta que uniu o útil ao agradável: conversou com os administradores da casa de repouso, explicou a situação e montou um ensaio fotográfico, seguindo todas as recomendações das autoridades sanitárias, com sua avó e outro idoso do lar. “Já fui com as imagens na cabeça e fiz duas cenas da minha vó: uma com ela dentro do quarto olhando para fora, deixando a atenção no olhar, e a segunda de suas mãos no portão, que se tornou o limite entre o mundo dela e o nosso”, lembra. A foto escolhida para a capa da revista, entretanto, foi a do outro idoso segurando uma bengala. “Uma imagem que remete à paciência de esperar o vírus passar, a vacina chegar, as visitas voltarem e a normalidade se estabelecer”, expõe Gabriel.

Quando veio o convite para fazer parte da Exposição “Arte em Processo”, com o mote sobre o que os artistas realizaram durante a pandemia, lembrou mais uma vez de dona Dirce. Batizou as fotos com a avó de “Clausura” e “Impérvio” e preparou uma instalação para as obras. No fim de janeiro, o fotógrafo comemorou, nas redes sociais, a primeira dose de vacina de dona Dirce. Pensava em ir com ela tomar um café numa panificadora ou ir à missa “com o padre bonito” na igreja Sagrado Coração de Jesus. E, claro: idealizou levá-la para ver a exposição “Arte em Processo”. No mês passado, infelizmente, ela sofreu um AVC isquêmico e não resistiu. Gabriel a acompanhou nos seus últimos momentos no hospital e fez os procedimentos do pós-óbito. “Foi minha despedida”, rememora.

Pouco depois da partida, o fotógrafo foi até o lar onde a avó morava para pegar os documentos e escolher a roupa para o velório. Ao entrar no quarto, acima da cabeceira estava dona Dirce, sorrindo em um quadro grande envolta de girassóis, fotografia que havia feito dela anos atrás, num dos passeios. “Enfim, sabemos que é o ciclo natural da vida, porém o que dói é saber que ela passou seu último ano de vida sem poder receber visitas, sem receber nossos abraços e sem dar seus rolezinhos que ela tanto gostava”, lamenta. “Ela ia se sentir orgulhosa de estar em uma exposição de arte”, diz Gabriel. Provavelmente esteja mesmo: orgulhosa do neto e de suas imagens emolduradas, por trás de um espelho quântico, sorrindo envolta em girassóis.

A visitação

A exposição “Arte em Processo” recebe visitantes presencialmente às terças e quintas-feiras, das 14h às 17h, no galpão 13 da Cidadela Cultural Antarctica, sede da Aaplaj. As visitas precisam ser agendadas pelo e-mail. Em função do incêndio na Cidadela, pela dificuldades para instalação de nova exposição, a mostra está estendida e não há data prevista de encerramento. Você confere todos os artistas expostos nessa postagem da Aaplaj. Mais informações, nas redes sociais da associação no Facebook e Instagram.

A exposição pode ser vista de forma completa neste vídeo realizado por Gabriel Silva. Na filmagem, você pode desfrutar 21 minutos de arte, nos quais a iluminação, as paredes cinzas do galpão, a captação de imagens e a música concedem ar onírico a “Arte em Processo”, como se o visitante navegasse em uma pequena galáxia de obras e ateliês.

 

 

 

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