A torre Eiffel, mesmo que de longe, mostra a Livia Frossard que a vida continua…

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A jornalista carioca Livia Frossard, que morou em Joinville entre os anos de 2009 e 2013, fala sobre a rotina de isolamento social na França, um dos países da Europa bastante atingidos pela Covid-19. E a Torre Eiffel exerce, para ela, o importante papel de renovação da esperança – e da vida.

“Uma das coisas que mais me atraem nos meses de inverno é poder ver a Torre Eiffel da varanda do segundo andar da minha casa. Mesmo miudinha, ao longe, eu fico feliz em vê-la e me dou conta de que estou aqui na França novamente. Depois de 10 anos e muitas mudanças, a vida me trouxe de volta a esse país. A vista para a torre me lembra de que tudo é efêmero. O confinamento também o será.

Moro atualmente em Saint Germain en Laye, uma cidade com cerca de 40 mil habitantes situada a 25 km a Oeste de Paris. A cidade é conhecida por ter sido residência dos reis da França antes da construção de Versailles. O centro da cidade ainda exibe, orgulhoso, o castelo em que nasceu Luis XIV, o rei Sol.

Desde o confinamento imposto pelo governo francês, o castelo, que hoje abriga o museu de arqueologia nacional, e os jardins que o cercam, está fechado ao público. A rua em frente a esse monumento grandioso antes era cenário de vai e vem de passageiros que pegavam o trem rumo a Paris. Hoje a rua, a estação e mesmo o ponto de ônibus que leva passageiros às cidades vizinhas estão vazios.

Estão também vazias as ruas em torno da minha casa, num bairro afastado do centro, mas movimentado pelo Lycée International de Sain Germain en Laye, uma escola reconhecida no país pelo ensino de excelência e por abrigar seções internacionais de 14 países. Desde o confinamento, a escola permanece fechada. Não se ouve o barulho dos mais de mil alunos e nem das obras de restauro que seriam inauguradas em julho, com concertos da Orquestra Filarmônica de Paris. Desde então, os estudantes, dentre eles minhas duas filhas, fazem suas aulas via diversos sistemas de ensino online.

A rotina da família mudou bastante desde o dia 12 de março quando o presidente Emmanuel Macron decretou o fechamento das escolas e universidades em todo o território francês. Em apenas um dia, dirigentes e professores tiveram que improvisar recursos para continuar as aulas online. As crianças ficariam em casa e eu também, já que dou aulas na ESLSCA, uma escola de negócios em Paris. A escola já tinha um sistema online mas só usava alguns recursos. Agora fazemos as aulas pela opção de videoconferência desse sistema.

Meu marido continuaria trabalhando no escritório da empresa, no entanto, no dia 16 de março o presidente reforçou as medias de confinamento e ordenou o fechamento de empresas, restaurantes e quaisquer serviços que não fossem considerados essenciais. Ele passou, então a trabalhar em casa.

O governo francês autoriza a saída de casa dentro dos seguintes critérios: ir ao trabalho caso você tenha uma ocupação que é essencial; fazer compras essenciais (mercados e farmácias), consultas médicas que não podem ser feitas online (grande parte dos médicos começou a fazer atendimento online, via um aplicativo chamado doctolib), motivos familiares, por exemplo cuidar de algum familiar idoso ou em casos de pais separados, saídas breves para passear com o cachorro ou fazer algum tipo de exercício desde que dentro de uma área de um quilômetro da sua residência), e motivos administrativos ou judiciais.  Sempre que alguém sair, deve preencher uma atestação.

Essa hora de exercício ou caminhada com nosso cachorro tem nos proporcionado momentos contemplativos dos sinais de primavera que brotam nos jardins e praças em torno de nossa casa. Outras atividades têm ajudado para manter nossa sanidade: o trabalho no jardim, plantando mudas e cuidando da horta, as conversas com os amigos e familiares também confinados pelo mundo e os shows de amigos músicos via mídias sociais. Assim matamos um pouco a saudade imensa que sentimos e angústia que a impotência diante desse quadro que vivemos. Nesses momentos, corro ao segundo andar e verifico se a torre ainda está ali. Se ela estiver, é sinal que a vida passou diante dela e vai continuar passando. “

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