A dura, lenta e planejada volta à (quase) normalidade

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A dura, lenta e planejada volta à (quase) normalidade

O gaúcho Luis Fernando Assunção, professor de jornalismo na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Utad), mora em Portugal desde 2018. Já trabalhou em Joinville, como repórter do jornal A Notícia. Em artigo para o site da Revista Francisca, relata como o país vem enfrentando (de maneira eficiente e pró-ativa) a pandemia do coronavírus: “A sociedade está vencendo um inimigo veloz e silencioso”. 

É muito estranho sair pela rua e não ver ninguém a caminhar, nenhum carro a transitar, as lojas fechadas, as praças vazias. Mesmo sem um confinamento obrigatório, a grande maioria dos portugueses seguiu à risca o pedido do presidente e do primeiro-ministro de ficar em casa. Desde o começo de março não funcionam shoppings, comércios em geral, universidades, escolas, creches. Continuaram abertas apenas farmácias, supermercados, alguns serviços públicos e algumas fábricas, com número de funcionários reduzido e em horário especial.  Moro em uma cidade pequena, Covilhã, de 40 mil habitantes, situada na região centro, que, assim como as demais, parou durante esta pandemia.

E é muito bom agora saber que esse sacrifício resultante do isolamento social surtiu o efeito desejado. Portugal atingiu em fim de abril o indicador R (que representa o número médio de pessoas infectadas por cada doente) de 0,94, um dos melhores da Europa e que indica a possibilidade de retorno de algumas atividades econômicas já a partir de maio. Só como comparativo, o Brasil tem um indicador acima de 3. Quanto mais alto esse índice, mais alta a velocidade de transmissão do vírus e, obviamente, menos condições de se voltar à normalidade. Além disso, Portugal, apesar de 25 mil casos confirmados de Covid-19, registrou até o momento um índice de mortalidade pela doença considerado baixo, de pouco mais de 3%.

Agora, depois de quase dois meses de confinamento e distanciamento social, a sociedade portuguesa se prepara um retorno lento e difícil à normalidade. A partir de 4 de maio voltam a funcionar os pequenos comércios (de até 200 metros quadrados de área), cabeleireiros, livrarias, revendas de automóveis, algumas repartições públicas. E isso tudo com rígido controle sanitário para evitar possíveis aglomerações, com a necessidade de distanciamento preventivo – o que, a rigor, supermercados e farmácias já vinham fazendo ao longo das últimas semanas – e higienização constante dos espaços físicos. As escolas só voltarão a funcionar a partir de junho, mas para muitas o ano letivo (que terminaria em junho) será concluído com ensino à distância.

Esses números e dados mostram muitas especificidades, mas duas me chamaram a atenção, sendo brasileiro. O planejamento e a disciplina da sociedade portuguesa que, em conjunto com o governo, está conseguindo vencer um inimigo veloz e silencioso. Por aqui, por exemplo, não assisti a nenhuma entrevista nos meios de comunicação de algum empresário a reclamar do governo ou do fato de sua empresa estar parada. O inimigo não é o governo, não são os políticos, não são os gastos milionários dos planos de ajuda aos trabalhadores parados. O inimigo é o vírus, todos dizem. E talvez por isso o planejamento esteja funcionando.

É certo que Portugal, assim como a Europa, terá recessão econômica. É certo que muitas empresas vão fechar, muitos trabalhadores perderão o emprego. Mas antes de reclamar disso tudo, os portugueses decidiram ficar em casa para derrotar o vírus e somente depois discutir e planejar a reativação da economia. Portugal também dá algumas lições ao mundo durante esta pandemia. Dá exemplos de união, de disciplina, de respeito, de solidariedade, de patriotismo (agora, mais do que nunca vemos bandeiras portuguesas nas sacadas das casas). E esperamos que a eficiência do governo no enfrentamento da pandemia seja a mesma para juntar os cacos da economia e para criar condições de voltar a dar a seus cidadãos a qualidade de vida invejável que sempre tiveram.

2 Comments

  1. Thais disse:

    Muito boa a matéria de Luís Fernando Assunção. Mostra que é possível reunir as pessoas em torno de um objetivo comum. Há uma grande diferença em relação ao Brasil: Portugal tem líderes que são respeitados e a população ama o país e o próximo.

  2. Alessandra Leite disse:

    É realmente admirável o senso de coletividade, o respeito pela vida, sobretudo.
    Como brasileira, lamento não termos aqui o mesmo discernimento entre uma enorme parte da população que insiste em brigar com inimigos errados.

    Parabéns, Portugal. E que a cura chegue logo, para que a vida possa ser retomada e ainda mais desejada que antes. Parabéns, Luis Fernando, pelo texto.

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