A despedida de Darcy Villa Verde, o “monstro do violão” que morou em Joinville

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A despedida de Darcy Villa Verde, o “monstro do violão” que morou em Joinville

Um dos mestres do violão brasileiro, Darcy Villa Verde faleceu no dia 12 de outubro, aos 85 anos, vencido por uma pneumonia. “Ele deixa uma saudade imensa entre seus familiares, amigos e fãs. O violão está de luto, mas hoje tem festa no andar de cima!”, foi o depoimento do amigo Alan Romero, seu empresário por anos. Em 2016, o jornalista Guilherme Diefenthaeler, editor da Francisca, escreveu sobre a passagem de Darcy por Joinville no livro “O Pinho Toca Forte – Histórias do Violão Joinvilense”, viabilizado pelo Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec). Abaixo, a íntegra do capítulo que fala sobre o músico.

O “monstro do violão” esteve entre nós. Um dos artistas brasileiros mais requisitados nos anos 1970, com renome internacional, o carioca que ganhou esse apelido de um apresentador de TV fixou residência em Joinville, em abril de 1993, e aqui ficou por quase uma década. Darcy Villa Verde andava pelos Estados Unidos quando soube que a mãe, Diva, havia se mudado para terras catarinenses, acompanhando a família de um irmão, funcionário da Petrobras. O músico veio conhecer Joinville e logo se encantou. Em pouco tempo, foi atrás da mãe, em busca da tranquilidade que o Rio de Janeiro já não assegurava. Morou nos bairros Glória e Iririú, fez algumas apresentações agenciadas pelo tio, João Carlos Villa Verde, e passou aqui os últimos anos de convívio com o instrumento, que pendurou para sempre em abril de 2000, quando tocou pela última vez, no aniversário de um amigo.

Da pacata São Lourenço, Minas Gerais, onde vive, Darcy deu entrevista ao autor em junho de 2015. Aos 81 anos, revelou ter largado a música por não ter mais pique para a maratona de religiosas quatro horas diárias de estudos que encarou enquanto esteve em atividade. Revelou uma ponta de vaidade, ao admitir que sempre detestou a imagem de artistas velhos no palco: “Pensava que isso poderia acontecer comigo”. Relatou que “uma das grandes felicidades” de sua história pessoal foi ter conhecido Joinville, embora lembre com melancolia que, naquela fase, perdeu a mãe. “Tenho saudades daí. Quem sabe, qualquer hora, vou dar um pulo em Joinville, no meu Fusquinha.” Com “mania de Fusca” (é dono de um modelo 83), foi pilotando o carrinho que, ao longo de 15 anos, girou pelo Brasil para incontáveis recitais, boa parte em localidades remotas. Viajava ao lado de Bob, um Setter irlandês – “tinha loucura por esse cachorro” –, com o violão, claro, e, zeloso pela autoimagem, muitos sapatos: “Violonista toca com o pé esquerdo em cima de um banquinho. Tem que caprichar no sapato”.

Nesse périplo, o produtor Alan Romero ia à frente, para agendar os concertos. Em 8 e 9 de setembro de 1973, a primeira parada no Norte do Estado, no palco da Sociedade Harmonia Lyra, sob o patrocínio da prefeitura de Joinville. A imprensa diria que o espetáculo “correspondeu à expectativa reinante, pela maestria e invejável talento” do artista. O músico estava na crista da onda, depois de uma longa temporada nos Estados Unidos e de sair com o troféu hors-concours do prestigioso Concurso Internacional de Violão, em Paris. A exibição, como declarou o violonista Fábio Zanon, em programa de rádio sobre a obra de Darcy, abriu portas na Europa: “Ele residiu na França por alguns anos, onde chegou a tomar aulas com a legendária Ida Presti”. Mesmo com a longa carreira, a única gravação comercial de Darcy é um compacto duplo de música popular, de 1962: “Sua atuação, neste disco, é modelar, e antecipa violonistas de hoje, ao conjugar raça, suingue e uma técnica absolutamente cristalina”, elogia Zanon.

As passagens por Santa Catarina deixaram, no empresário Romero, uma memória positiva. “Sempre tivemos casa cheia, público educado e muito espaço na imprensa”, resume. Segundo ele, foram tempos de pioneirismo, formando plateias para a música instrumental. “Em muitos lugares onde o Darcy tocou, nunca tinha havido um recital de violão. Depois, ficávamos sabendo que outros violonistas seguiram nosso caminho, o que era uma satisfação”. Joinville, Florianópolis e Blumenau entraram mais de uma vez no circuito, que também abrangeu Brusque e Lages – “uma experiência inesquecível, com um frio de rachar. Tivemos que colocar dois aquecedores potentes no palco, senão os dedos do Darcy enregelavam”. Primo do violonista, o médico Rui Villa Verde, que mora em Joinville, guarda um rico acervo do artista, como programas originais de concertos na Rússia e nos EUA, onde Darcy se apresentou na Georgetown University e no Carnegie Hall, festejada casa de espetáculos de Nova York. Rui se recorda de ter assistido a recitais marcantes, em espaços como a Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro. “Darcy incorporava aquelas características típicas do artista: era polemista, irreverente, bocudo, falava mal do governo em plena ditadura militar, mas sempre muito família. Era meio antagônico, enfim”.

5 Comments

  1. Ricardo Luiz Cardoso disse:

    Tive o prazer de conhecê-los, aqui em São Lourenço, sul de Minas Gerais, no final de sua vida. Uma figura excepcional, alegre, humana, um cidadão do mundo, que deixará nuita saudade, pelacsua obra artística, assim como, no vigor e sabedoria, de suas palavras…
    Darcy Villa Verde deixará saudades, lamento sua partida… Ricardo Luiz Moby

  2. Verá Castro disse:

    Moro nos Estados Unidos e conheci Darci Villa Verde era um ser incrível fui em várias apresentações dele aqui em Miami ..
    Ele era uma Pessoa muito amável e querido
    Tocava Violão e encantava seus fan’s
    Tenho lindas lembranças dele ..
    Que Deus lhe dê apaz e o céu como prêmio
    E junto com os anjos continue continue lá em
    Cima tocando seu Violão e encantado
    Até um dia Darci Villa Verde ♥️

    • revistafrancisca disse:

      Vera, muitíssimo obrigado pelo comentário. Tivemos a oportunidade de conversar com o violonista para a produção de um livro sobre a prática e a história do instrumento em Joinville. De fato, ele era admirável. Grato pela leitura e retorno. Um abraço,

      Guilherme Diefenthaeler, editor da Francisca

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